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O MEC e a guerra ao ‘marxismo cultural’ nas universidades

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A substituição de Vélez Rodriguez por Abraham Weintraub no Ministério da Educação (MEC) significa uma aposta de Bolsonaro na continuidade da disputa ideológica, com maior intensidade e coordenação, na área educacional. Também foi um gesto político que fortaleceu o núcleo mais extremista do bolsonarismo em detrimento do espaço dos militares no primeiro escalão do ministério.

Palácio Gustavo Capanema, Rio, primeira sede do MEC: Modernidade e confiança no futuro

Weintraub, como Vélez, foi uma indicação do jornalista Olavo de Carvalho para atuar numa área considerada pelo governo sob “controle” da esquerda. Portanto, segundo essa leitura reducionista e arbitrária, uma frente de combate ideológico. Logo era necessário ajustar as peças para iniciar a guerra ao impreciso e vago conceito de “marxismo cultural”, mas que tem materialidade e concretude no corpo técnico especializado e de carreira do MEC, no funcionamento das instituições universitárias, nos reitores eleitos pela comunidade, na autonomia universitária, nos programas e projetos pedagógicos.

A partir dessas premissas, a agenda do novo ministro indica um período de tensão política no interior do MEC e do sistema federal de ensino, abrangendo também instituições como o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e a rede federal de universidades tecnológicas.

Em outra frente, o ministro Weintraub, um cruzado neoliberal, será o elo com o ideário econômico de Paulo Guedes, que opera o fim das vinculações constitucionais às despesas obrigatórias em Educação, Saúde e nas demais áreas sociais. Um projeto de desmonte sem precedentes do aparelho estatal construído desde a década de 30.

A combinação de guerra ideológica e impulso privatizante será a bússola estratégica da política desenvolvida pelo comando do MEC. O combate ao “marxismo cultural nas universidades” é apenas a primeira etapa do projeto de longo alcance de destruição do sistema público de ensino superior.

Para isso acontecer, é necessário estigmatizar as universidades (não esqueçam do recurso odioso da Lava Jato na Educação), quebrar a autonomia universitária, desacreditar o corpo docente, eliminar a escolha democrática dos reitores e acabar também com o Plano Nacional da Educação, com o Fundeb e esvaziar paulatinamente o Enem.

Um cenário que aponta em perspectiva para uma dura batalha em defesa do conjunto do sistema educacional público, laico e universal no país. Uma luta profundamente ligada aos destinos da democracia no Brasil.

Portanto, o discurso de combate ao “marxismo cultural” nas universidades funciona como uma espécie de Cavalo de Troia para implantação de um outro modelo educacional – privatizado, excludente e regressivo.

Em memória de gigantes como Gustavo Capanema, Anísio Teixeira, Osvaldo Cruz, Noel Nutels, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Hollanda, Dona Ruth Cardoso, entre outros, que contribuíram com a grande epopeia civilizatória da criação de um amplo e inclusivo sistema público de ensino em nosso país, devemos lutar com toda energia contra o criminoso e obscurantista projeto bolsonarista para a Educação.

*Artigo Publicado originalmente no Blog do Esmael Morais em 15/04/2019

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Artigo de Lula: Por que têm tanto medo de Lula livre?

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“Eles sabem que minha libertação é parte importante da retomada da democracia no Brasil. Mas são incapazes de conviver com o processo democrático” , escreve Lula em artigo na Folha de São Paulo neste domingo (7 de abril), quando completou um ano da sua prisão política em Curitiba.

Sao Bernardo do Campo, Brazil, April 7, 2018. REUTERS/Francisco Proner

Por Luiz Inácio Lula da Silva*

Faz um ano que estou preso injustamente, acusado e condenado por um crime que nunca existiu. Cada dia que passei aqui fez aumentar minha indignação, mas mantenho a fé num julgamento justo em que a verdade vai prevalecer. Posso dormir com a consciência tranquila de minha inocência. Duvido que tenham sono leve os que me condenaram numa farsa judicial.

O que mais me angustia, no entanto, é o que se passa com o Brasil e o sofrimento do nosso povo. Para me impor um juízo de exceção, romperam os limites da lei e da Constituição, fragilizando a democracia. Os direitos do povo e da cidadania vêm sendo revogados, enquanto impõem o arrocho dos salários, a precarização do emprego e a alta do custo de vida. Entregam a soberania nacional, nossas riquezas, nossas empresas e até o nosso território para satisfazer interesses estrangeiros.

Hoje está claro que a minha condenação foi parte de um movimento político a partir da reeleição da presidenta Dilma Rousseff, em 2014. Derrotada nas urnas pela quarta vez consecutiva, a oposição escolheu o caminho do golpe para voltar ao poder, retomando o vício autoritário das classes dominantes brasileiras.

O golpe do impeachment sem crime de responsabilidade foi contra o modelo de desenvolvimento com inclusão social que o país vinha construindo desde 2003. Em 12 anos, criamos 20 milhões de empregos, tiramos 32 milhões de pessoas da miséria, multiplicamos o PIB por cinco. Abrimos a universidade para milhões de excluídos. Vencemos a fome.

Aquele modelo era e é intolerável para uma camada privilegiada e preconceituosa da sociedade. Feriu poderosos interesses econômicos fora do país. Enquanto o pré-sal despertou a cobiça das petrolíferas estrangeiras, empresas brasileiras passaram a disputar mercados com exportadores tradicionais de outros países.

O impeachment veio para trazer de volta o neoliberalismo, em versão ainda mais radical. Para tanto, sabotaram os esforços do governo Dilma para enfrentar a crise econômica e corrigir seus próprios erros. Afundaram o país num colapso fiscal e numa recessão que ainda perdura. Prometeram que bastava tirar o PT do governo que os problemas do país acabariam.

O povo logo percebeu que havia sido enganado. O desemprego aumentou, os programas sociais foram esvaziados, escolas e hospitais perderam verbas. Uma política suicida implantada pela Petrobras tornou o preço do gás de cozinha proibitivo para os pobres e levou à paralisação dos caminhoneiros. Querem acabar com a aposentadoria dos idosos e dos trabalhadores rurais.

Nas caravanas pelo país, vi nos olhos de nossa gente a esperança e o desejo de retomar aquele modelo que começou a corrigir as desigualdades e deu oportunidades a quem nunca as teve. Já no início de 2018 as pesquisas apontavam que eu venceria as eleições em primeiro turno.

Era preciso impedir minha candidatura a qualquer custo. A Lava Jato, que foi pano de fundo no golpe do impeachment, atropelou prazos e prerrogativas da defesa para me condenar antes das eleições. Haviam grampeado ilegalmente minhas conversas, os telefones de meus advogados e até a presidenta da República. Fui alvo de uma condução coercitiva ilegal, verdadeiro sequestro. Vasculharam minha casa, reviraram meu colchão, tomaram celulares e até tablets de meus netos.

Nada encontraram para me incriminar: nem conversas de bandidos, nem malas de dinheiro, nem contas no exterior. Mesmo assim fui condenado em prazo recorde, por Sergio Moro e pelo TRF-4, por “atos indeterminados” sem que achassem qualquer conexão entre o apartamento que nunca foi meu e supostos desvios da Petrobras. O Supremo negou-me um justo pedido de habeas corpus, sob pressão da mídia, do mercado e até das Forças Armadas, como confirmou recentemente Jair Bolsonaro, o maior beneficiário daquela perseguição.

Minha candidatura foi proibida contrariando a lei eleitoral, a jurisprudência e uma determinação do Comitê de Direitos Humanos da ONU para garantir os meus direitos políticos. E, mesmo assim, nosso candidato Fernando Haddad teve expressivas votações e só foi derrotado pela indústria de mentiras de Bolsonaro nas redes sociais, financiada por caixa 2 até com dinheiro estrangeiro, segundo a imprensa.

Os mais renomados juristas do Brasil e de outros países consideram absurda minha condenação e apontam a parcialidade de Sergio Moro, confirmada na prática quando aceitou ser ministro da Justiça do presidente que ele ajudou a eleger com minha condenação. Tudo o que quero é que apontem uma prova sequer contra mim.

Por que têm tanto medo de Lula livre, se já alcançaram o objetivo que era impedir minha eleição, se não há nada que sustente essa prisão? Na verdade, o que eles temem é a organização do povo que se identifica com nosso projeto de país. Temem ter de reconhecer as arbitrariedades que cometeram para eleger um presidente incapaz e que nos enche de vergonha.

Eles sabem que minha libertação é parte importante da retomada da democracia no Brasil. Mas são incapazes de conviver com o processo democrático.

*Ex-presidente da República (2003-2010).

Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo em 07/4/2019

O povo derrotou a ditadura e vai derrotar a gangue de Bolsonaro!

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Nesta segunda-feira, 1º de abril, nas ruas de todo o país vamos homenagear a memória de todos que pereceram em defesa da democracia. Os riscos e as ameaças à democracia feitas pelo governo Bolsonaro, de generais, neoliberais e tribunais -, terá que enfrentar, cada vez mais, uma muralha política de resistência e rebeldia popular.

ditadura massa

Foram 21 anos de luta popular, sindical, estudantil, cultural, parlamentar, clandestina e legal -, mas o povo pouco a pouco foi erguendo a muralha da resistência, construindo suas organizações, levantando as bandeiras pelas liberdades democráticas, pela anistia, pelo fim das torturas e do aparelho repressivo de assassinatos de opositores, do terrorismo de estado, a partir do AI5 em dezembro de 1968.

Muitos perderam a vida nesse duro combate, uma legião de órfãos, viúvas, mães sem paradeiro do filho desaparecido, mas a luta continuou…E foi crescendo e crescendo até o isolamento político e moral da ditadura e de seus generais nos meados dos anos 80′.

Agora, novamente, a democracia corre um risco crescente com um governo de generais, neoliberais e tribunais. Uma malta que mescla facínoras de extrema-direita, como Jair Bolsonaro, procuradores e juízes da cloaca antidemocrática da Lava Jato, generais de pijama e coronéis ávidos por fatias de poder — todos a serviço dos grandes consórcios de capitalistas e de banqueiros daqui e de fora.

Assim como encontramos o caminho da vitória contra a ditadura, haveremos de encontrar o caminho da vitória popular para libertar o Brasil da gangue de Bolsonaro. 

Um povo unido e mobilizado fará prevalecer, mais cedo ou mais tarde, o peso da sua vontade para conquistar um país mais justo e inclusivo, esmagando a minoria apátrida que nutre ódio e desprezo pelos direitos econômicos e sociais da brava gente brasileira. 

Neste domingo (31) e segunda (1), nas ruas de todo o país vamos homenagear a memória de todos que pereceram na luta pela democracia. 

E seguir adiante na defesa dos princípios da Constituição Cidadã de 1988, na defesa da Previdência Pública, dos direitos econômicos e sociais do povo trabalhador, pela punição dos crimes da Lava Jato e pela imediata liberdade do ex-presidente Lula.

*Ativista político e social, militante do PT de Curitiba. 

**Artigo publicado originalmente no Blog do Esmael em 31/03/2019

Lula Livre é defender a democracia e derrotar ‘estado policial lavajatista’

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O Encontro Nacional Lula Livre, realizado no último sábado em São Paulo, além de ressignificar a campanha pela liberdade do ex-presidente, iniciou um processo de unidade das principais forças partidárias da esquerda, dos movimentos sociais e sindicais.

artigo Lula Livre SAB

O evento, que reuniu mais de mil ativistas de todo o país, partidos políticos (PT, PSOL, PCdoB, PCO) lideranças sindicais, do movimento negro, jornalistas, militantes de 300 Comitês Lula Livre, representou também uma aliança prática entre a esquerda política e o ativismo social para enfrentar a agenda do governo de extrema-direita de Bolsonaro.

Porém, o ganho de consciência mais importante dos dirigentes e militantes da esquerda política e social foi a compreensão de que a Campanha Lula Livre é o eixo central e unificador da luta pela democracia e um instrumento para derrotar o projeto em curso do governo da extrema-direita – e de seu braço judicial na operação lava jato de criar as bases de um estado policial.

Projeto conduzido pelo ministro da Justiça Sergio Moro e pelos procuradores de Curitiba, protegidos pelo generalato reacionário, que integra o campo bolsonarista. E estimulado por setores do aparato midiático dos grande grupos econômicos.

A tentativa da lava jato de montar um fundo bilionário, sem transparência e violando todos os princípios da gestão pública do estado brasileiro, despertaram amplos segmentos do aparelho do Poder Judiciário dos riscos à democracia representado pela ação criminosa do grupo nucleado em Curitiba, que conta com o suporte do Departamento de Justiça dos EUA e de outras agências do império.

Como assinalou o sentido da mensagem do presidente Lula ao encontro: “A nossa luta é pela democracia e pela justiça. E só vamos alcançar esses objetivos defendendo os direitos do povo e a soberania nacional, porque foi contra estes valores que deram o golpe e interferiram na eleição. Foi para entregar nossas riquezas e reverter as conquistas sociais. Que os comitês Lula Livre tenham isso bem claro e atuem cada vez mais na sociedade, nas redes, nas escolas e nas ruas”, disse o ex-presidente.

A prisão política de Lula, uma operação de lawfare para tirá-lo da disputa presidencial em 2018, teve revelada toda a trama com a nomeação de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL).

Neste sentido, a jornada nacional e internacional por Lula Livre, entre 7 a 10 de abril, será um momento decisivo para a incorporação de amplos segmentos do nosso povo no combate pela liberdade de Lula,  contra o desmonte social, por punição para os assassinos de Marielle Franco, criando uma poderosa e potente rede de comitês de base da Campanha Lula Livre nos locais de trabalho, moradia, estudo, cultura e nas redes sociais.

*Artigo publicado originalmente no Blog do Esmael Morais em 18/03

O ‘combo 3 em 1’ do governo Bolsonaro para limar os sindicatos

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O governo do presidente Jair Bolsonaro decidiu abrir uma guerra frontal com o movimento sindical. Com uma agenda ultraliberal, que retira direitos sociais e econômicos da classe trabalhadora, cuja a principal medida é a “reforma” da Previdência, a dupla Bolsonaro/Guedes aponta uma pesada artilharia para desarticular a estrutura sindical.

Por Milton Alves*

Trata-se de um combo de três medidas que opera em sintonia com o objetivo principal do governo neste momento, que é o fim do sistema previdenciário público e de repartição solidária – o modelo em vigência.

O combo de medidas tem três equações: a primeira é a Medida Provisória 873, que obstaculiza de imediato o financiamento da atividade sindical. As duas em seguidas integram o rol de consequências: a inanição material e financeira dos sindicatos, federações, confederações, centrais -, o que vai praticamente minar a capacidade de luta e resistência do sindicalismo ao governo da extrema-direita. E mais adiante, já no forno do Planalto, segundo anunciou o secretário de Previdência Social e Trabalho, o ex-deputado Rogério Marinho, será editada uma PEC para acabar com a unicidade sindical. Um terceiro tiro, que completará o ciclo de esvaziamento e pulverização do “poder” sindical.

A maioria dos analistas políticos e consultorias econômicas acredita que os sindicatos estão desgastados e na defensiva para travar esta guerra de vida ou morte com o governo bolsonarista.

A MP 873/19 é uma continuidade da “reforma trabalhista” iniciada no governo golpista de Temer e tem como objetivo principal estrangular financeira e materialmente a organização dos trabalhadores.

É temerária qualquer tentativa de negociação ou barganha com o atual governo, que tem uma opção ideológica orgânica a favor do capital. E nem adianta perder tempo em reuniões com o general Mourão sobre a questão. O bloco governista joga fechado nisso daí…De ferrar com os sindicatos.

A medida assinada por Bolsonaro e pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, acaba com as contribuições sindicais decididas em assembleia, determinando que elas sejam pagas individualmente, pelos filiados aos sindicatos, por boleto bancário.

O documento deve ser enviado diretamente ao trabalhador pela entidade sindical. Para cuja emissão a MP exige a “prévia, voluntária, individual e expressamente autorizado pelo empregado,” autorização que deverá “ser individual, expressa e por escrito, não admitidas a autorização tácita ou a substituição dos requisitos estabelecidos neste artigo para a cobrança”, e torna nula “a regra ou a cláusula normativa que fixar a compulsoriedade ou a obrigatoriedade de recolhimento a empregados ou empregadores”, mesmo que “referendada por negociação coletiva, assembleia-geral ou outro meio previsto no estatuto da entidade.”

Exige que a contribuição dos empregados “será feita exclusivamente por meio de boleto bancário ou equivalente eletrônico, que será encaminhado obrigatoriamente à residência do empregado ou, na hipótese de impossibilidade de recebimento, à sede da empresa.”

A MP nº 873, portanto, é um dispositivo que visa estrangular a atividade sindical, criando uma legislação autoritária e impositiva para dificultar os meios de sustentação material da atividade de representação e organização da classe trabalhadora.

A MP é o primeiro e contundente movimento da guerra do bolsonarismo contra a atividade sindical. A derrota nessa batalha pode significar o dobre de finados do sindicalismo.

*Artigo publicado originalmente na minha coluna no Blog do Esmael Morais em 10/3/2019

O revisionismo de Putin e a ‘quinta morte’ de Trotsky na série da Netflix

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No papel de Trostky, o popular ator e símbolo sexual russo, Konstantin Khabensky

Por Milton Alves

Assisti aos oito capítulos da série sobre o revolucionário russo ainda no mês de dezembro e fui provocado a escrever alguma coisa. Sem risco de cometer spoilers, creio que a maioria dos amigos e leitores com quem conversei já assistiram o polêmico seriado. As diversas análises sobre a série Trotsky partiram de visões históricas e do papel político do companheiro de armas de Lênin e um dos principais líderes da Revolução de 1917.

Neste texto vou procurar desenvolver uma outra abordagem, não vou centrar a minha análise nas imprecisões históricas ou na estética da obra, aliás bem produzida. Ou mesmo em tentar refutar a visão deturpada veiculada na série sobre aquele processo político e social, que sacudiu o século XX e inaugurou a emergência de um movimento de caráter socialista radical em escala mundial, culminando com a criação da III Internacional Comunista e as tentativas de revolução na Alemanha.

A série é demolidora no trato da reputação dos líderes bolcheviques e de seus objetivos. Em rápidas pinceladas: Lênin é apresentado como um oportunista, um sujeito manipulador e sem qualquer escrúpulos para atingir seus objetivos políticos. Trotsky é despido de qualquer traço humano, é uma espécie de demônio, frio, arrogante, ditatorial, devorador de almas burguesas e de mulheres. Stálin é um anão político ressentido com o brilho e a liderança de Leon Trotsky. Parvus é o caixa-2 da revolução, financiando com dinheiro alemão a insurreição bolchevique contra o poder czarista.

Em traços gerais, como um novelão, os personagens reais e os fatos históricos são mesclados com amplas doses ficcionais, mas que servem ao projeto de revisão histórica atualmente em curso na Rússia.

O governo de Putin opera uma ampla revisão histórica com o objetivo político de consolidar o longo domínio de sua camarilha política no país . As populares séries produzidas pela televisão estatal russa buscam construir um imaginário de uma nova Rússia unificada, revitalizando o conhecido expansionismo grão russo. As séries “Demônio da Revolução” sobre Lênin, “Os Caminhos da Tormenta”, sobre a agonia final das classes dominantes russas pré-1917, e “Trotsky” tratam de construir uma nova narrativa da história do país. O diretor da série Trotsky, Alexander Kott, e o produtor, Konstatin Ernest (produtora Sreda), possuem fortes vinculações com o partido de Putin, o Yedínaya Rossíya (Rússia Unida).

A “Era Putin” seria, assim, a síntese do melhor da história russa: agregando os valores unificadores e expansionistas da monarquia, aliado ao clero da Igreja Ortodoxa (a maior intérprete da alma profunda russa) e as conquistas científicas e o protagonismo mundial (incluindo a Grande Guerra Patriótica de resistência ao Nazismo) do período soviético.

A série reserva também momentos de densos diálogos como uma imaginária conversa entre o líder bolchevique e o psicanalista Sigmund Freud em Viena sobre o “caráter feminino das massas” e as discussões intimistas e perturbadoras com o jornalista Frank Jacson (Ramón Mercarder) no exílio forçado em terras mexicanas.

A série foi um sucesso de público na Rússia e popularizou Leon Trotsky para as novas gerações. Depois das sucessivas “mortes” do Trotsky real: a primeira, a morte política com o exílio forçado e a destituição da cidadania soviética; a segunda, a morte afetiva, com a separação e a liquidação física de sua família; a terceira, a morte física do próprio Trotsky  patrocinada pelo estado soviético stalinizado, tão bem retratada na trilogia de Isaac Deutscher (O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e O Profeta Banido). A quarta, a morte da memória e do legado, uma ação não só do stalinismo, mas também de seus seguidores com as sucessivas cisões e cismas quase religiosos na minguada e esquizofrênica IV Internacional, que gerou facções políticas em nome do trostskismo como as sectárias e escatológicas correntes posadistas (do argentino Juan R. Posadas) e morenistas (do argentino Hugo Miguel Bressano, conhecido como Nahuel Moreno).

E agora, Putin, para fortalecer o poder autocrático da sua liderança, decretou a quinta morte de Trostsky. 

Como uma “alma penada” da mitologia portuguesa, Trotsky parece não ter desencarnado em definitivo da vida terrena, seu espectro ainda ronda a alma dos vivos.

Resistência ativa para derrotar o governo Bolsonaro, de neoliberais, generais e tribunais! Por Lula Livre!

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Em artigo publicado em 4 de novembro, uma semana depois do resultado do segundo turno, escrevi sobre a necessidade de um eixo tático de resistência que agrupasse a esquerda em torno da palavra de ordem ‘Por Lula Livre’.  Republico o texto novamente acrescentando, porém, duas notas: uma sobre a decisão do PT , PSOL e frações do PCdoB de não participar da solenidade de posse do governo Bolsonaro.  A segunda, com base nos discursos de posse e das primeiras medidas anunciadas pelo novo governo, acerca do tipo e do caráter da oposição que o PT e a esquerda devem construir a partir da nova conjuntura política pós-eleições.

faixa lula

Nota 1 – O Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) acertaram politicamente quando decidiram não participar da solenidade de posse do novo governo no Congresso Nacional. O show de horrores e as provocações de Bolsonaro explicitaram, mais uma vez, que está em curso uma tentativa de mudança de regime, um novo modo de governar com traços bonapartistas e autoritários. Um regime de democracia limitada e tutelado pelo alto comando das Forças Armadas (FFAA). Além do ultraliberalismo entreguista na economia e do esmagamento dos direitos sociais e econômicos dos trabalhadores e dos pobres.

Nota 2 – Desde o golpe, via impeachment, que derrubou o governo da presidente Dilma Rousseff segue uma disputa polarizada na sociedade brasileira centrada em duas narrativas básicas que disputam os rumos políticos do país, os corações e as mentes dos brasileiros. A polarização é um fato objetivo e segue ditando o comportamento dos atores políticos decisivos e do conjunto de classes e categorias sociais.

A prisão política de Lula e a vitória eleitoral de Bolsonaro são faces do mesmo e único processo. Se temos essa compreensão de conjunto, a questão nos remete, inevitavelmente, para a natureza do combate político que deveremos travar contra o governo dos neoliberais, generais e tribunais.

Logo, as altissonantes proclamações por frentes amplas e de união da esquerda com o centro tem pouca valia, se não identificarmos quem serão os nossos aliados fundamentais e as forças motrizes e centrais para derrotar o projeto dominante em curso.

Somente uma resistência ativa e de massas, impulsionada a partir das bases sociais dos trabalhadores organizados, do precariado dos grandes centros urbanos, da juventude e das camadas médias profissionais -, será capaz de criar uma muralha política para derrotar o projeto da extrema-direita. Sem essa base social mobilizada e em luta por um projeto alternativo, a esquerda será cada vez mais batida e isolada.

O maior desafio, portanto, é como vamos atrair, reunir e mobilizar esses setores e segmentos sociais para uma efetiva e sólida resistência: a forma e o conteúdo político ganham importância nesse novo cenário. Ao mesmo tempo, as dificuldades que se apresentam são imensas: os sindicatos e centrais seguem distantes dos trabalhadores na base; as organizações estudantis tradicionais estão esvaziadas e sem poder de mobilização; as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo ainda operam no circuito restrito das camadas mais mobilizadas de ativistas sociais. MST e MTST ameaçados de criminalização. Ou seja, a esquerda precisa reinventar novas formas organizativas de protesto social, explorar com habilidade e inteligência os novos recursos de mobilização social aberto pelas redes sociais (os “coletes amarelos” da França, são um exemplo positivo nesse sentido).

Nesse sentido, para romper o círculo de ferro imposto pela extrema-direita, que compõe o núcleo duro do novo governo, a esquerda vai precisar agir com mais audácia política, com mais vigor militante e assertividade organizativa, fortalecendo as ações extra-parlamentares, de rua – atuando de fora para dentro das atuais instituições –  tensionando no limite a legalidade institucional do novo bloco dominante, das instituições parlamentares e dos tribunais.

É uma rota de acumulação de forças, que demarca com qualquer tentativa de acomodação e adaptação ao governo da extrema-direita.

Serão tempos de sangue, suor e lágrimas…

A seguir artigo publicado em 04 de novembro.

*****

Por Lula Livre, agrupar o PT e a esquerda para a avançar a resistência popular

Ainda estão crepitando as brasas da disputa eleitoral encerrada no último domingo (28), que, segundo os analistas políticos, foi a eleição presidencial mais polarizada na história do País.  Grosso modo, dois projetos se defrontaram nas urnas, nas ruas e redes sociais. A vitória do candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro (PSL), encerra um ciclo político iniciado com o processo de redemocratização, que aposentou os governos da ditadura e formulou o pacto político e social da Constituinte de 1988.

Aqui neste breve texto, o objetivo não é a realização de nenhum exame das causas da derrota do projeto democrático e popular, representado pelo candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, mas, sim, prospectar os caminhos da necessária e inevitável resistência popular.

A vitória de Jair Bolsonaro (PSL), candidato de uma coalização de setores empresariais, banqueiros, militares, de segmentos do aparelho judiciário, do agronegócio mais reacionário, igrejas pentecostais e de grupelhos neofascistas, alcançando 57, 7 milhões de votos (55,13% dos votos válidos) contra 47,03 milhões (44,87%) de Fernando Haddad (PT), abre uma etapa de novos desafios políticos para a esquerda e redesenha o mapa da correlação de forças no país. Candidatos conservadores também venceram as eleições para os governos estaduais de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Ou seja, uma nova situação que vai exigir do conjunto da esquerda, em particular do PT, um esforço para a construção de uma frente política de resistência ao novo governo, tendo como núcleo central os partidos de esquerda e os movimentos sociais, para impulsionar uma potente oposição de caráter popular, construída pela base e unificada na defesa dos trabalhadores e dos pobres, da democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional.

Nesse contexto, a retomada com todo vigor da campanha nacional e internacional por “Lula Livre” é um dos eixos centrais do combate ao governo autoritário, ainda mais agora com a nomeação do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça. Além disso, avulta a luta em defesa das liberdades democráticas e da soberania nacional.  O que demanda também o debate mais aprofundado na esquerda da palavra de ordem de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte – bandeira demonizada pela direita e a mídia monopolizada.

Por último, a experiência de toda uma geração de militantes da esquerda, incluindo os petistas, se deu num quadro de ascenso de massas, de grandes mobilizações populares, de vitórias eleitorais e de ocupação de espaços no aparelho de Estado em diversos níveis. Mesmo durante o período de hegemonia neoliberal dos governos de FHC, a luta social avançou e o PT se fortaleceu, acumulando sempre mais força. Porém, a situação mudou de qualidade. Há uma evidente defensiva entre as camadas de trabalhadores organizados, a classe média se deslocou para o conservadorismo e temos um cenário internacional e latino-americano de avanço da direita.

É nessa conjuntura adversa que estamos chamados a travar o combate em defesa de nosso projeto civilizatório de nação, com audácia, resiliência e com o otimismo da esperança.

Resistir é o primeiro passo…

*Artigo publicado originalmente no Blog do Esmael em 04/11/2018. E em diversos sites especializados em política. 

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