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Memória – Em 1917, Curitiba foi sacudida por uma greve geral de trabalhadores

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O ano de 1917 significou um marco importante nas lutas sociais e emancipadoras dos trabalhadores e dos povos no mundo, impactados pela 1° guerra mundial e um acontecimento inédito ocorrido na Rússia tsarista: uma revolução em fevereiro de 1917 protagonizada por trabalhadores, organizados em conselhos de operários e soldados. Um episódio que marcaria a existência do século XX, como afirmou o historiador Eric Hobsbawm, e foi o início da “era das revoluções”. O cenário transformador, que liquidou a velha ordem imperial na Europa, avançou para todos os continentes. A greve geral de 1917 ocorrida no Brasil também foi influenciada por estes acontecimentos.

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Concentração de grevistas na atual Desembargador Westphalen, em 1917

A greve geral de 1917, teve início no Cotonifício Crespi, fábrica localizada no bairro da Mooca, reduto italiano de São Paulo, e alcançou imediatamente todo estado de São Paulo -, por fim, abrangeu praticamente todo o país entre os meses de junho e julho, com greves deflagradas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Pará, Mato Grosso, Bahia e Paraná.

As reivindicações do operariado de então (depois de um século algumas dessas reivindicações estão na ordem com a famigerada reforma trabalhista do governo golpista de Temer. Andamos para trás?) eram a redução da desumana jornada de trabalho de 14, 16 horas, para oito horas de trabalho, regulamentação do trabalho das mulheres e menores, semana de cinco dias e meio, pontualidade no pagamento, abolição completa das multas, higiene e segurança nas fábricas, assistência médico-hospitalar, direito à instrução, baixa imediata dos preços da carne, farinha de trigo, açucar e do aluguel, fim do despotismo e das humilhações dos chefes e capatazes no ambiente fabril. Ou seja, operariado exercitava os seus músculos e nervos como ator político, sujeito histórico da própria existência, adquirindo “consciência de classe em si para si”, como definiu Karl Marx.

A mobilização operária na capital paulista assumiu grandes proporções, o que motivou uma escalada repressiva das autoridades governamentais. A morte de um jovem operário recrudesceu o movimento e ampliou a solidariedade em todo o país.

Em Curitiba, além da solidariedade com os proletários de São Paulo, as mesmas reivindicações impulsionaram as primeiras assembleias e comícios dos trabalhadores. É o que relata o livro A Greve Geral de 17 em Curitiba”, de autoria dos professores Ricardo Marcelo Fonseca e Mauricio Galeb: “E como em todo o Brasil as manifestações de apoio iam se sucedendo numa reação em cadeia, o operariado curitibano também não poderia deixar de participar de toda essa mobilização. A situação de penúria e a carestia que deflagrara o movimento grevista em São Paulo também se fazia sentir na capital paranaense, situação que unificou as agitações operárias em torno um movimento de solidariedade em relação aos colegas paulistas. Mais do que isto, assinala também o Diário da Tarde(16/07/1917), (…) já, então, um movimento de solidariedade ao proletariado paulista começava a esboçar-se em Curitiba. Das reuniões isoladas, passou-se, a 15 de julho, para uma assembleia geral das nossas entidades operárias. Aí foi deliberado realizar-se um grande comício que teria lugar à dia 18”.

No dia 18, quarta-feira, ás 20 horas, na Praça Tiradentes, é realizado um comício, com uma grande e numerosa afluência de operários, onde vários oradores discursaram conclamando à greve geral. Segundo o relato do livro, depois do comício na Praça Tiradentes “todos foram convocados para se dirigir até a Sociedade Protetora dos Boleeiros, onde se daria uma assembleia para fixar o comportamento a ser seguido. A reunião se estendeu noite adentro, com grande quórum, sendo presidida alternadamente por Octavio Prado, Adolpho Silveira e Bartolo Scarmagnan. Nesta reunião se decidiu, então, que iria ser deflagrada a greve geral dos trabalhadores curitibanos, que se estenderia até que os patrões aceitassem a lista de reivindicações que foi proposta por Octavio Prado e aclamada pela multidão que estava presente”.

Nos próximos dias, o movimento avança parando os meios de transportes – bondes e trabalhadores da estação ferroviária, organizam-se piquetes para impedir a distribuição de pão e carne – e, ao mesmo tempo, a repressão policial começa atuar com vigor contra o movimento, prendendo lideranças e grevistas. Um quadro dramático da situação da cidade é retratado pelo Diário da Tarde (em 20/07/2017), quando cerca de mil operários ocupam a usina de eletricidade, deixando Curitiba sem energia elétrica por algumas horas: ” O aspecto da cidade era terrível ás sete horas da noite. As escuras e cheias de boatos alarmantes, parecia que nós achávamos em plena revolução (…) Era funambulesco o aspecto da cidade ás escuras, mas acima disso estava o terror que se espalhou ao ouvir-se um renhido tiroteio”.

Os enfrentamentos entre operários e a polícia prosseguem: “em muitas ruas do centro da cidade e também nos arrabaldes do Portão, Batel, Matadouro, etc., a polícia tem effetuado numerossimas prisões de individuos que praticavam depredações, quebrando lampeões elétricos, colocando pedras nos trilhos dos bondes”, registra o Diário da Tarde em 23 de julho de 17.

No dia 24, sem acordo e negociação em torno das demandas operárias, com intensa onda de repressão, o movimento grevista termina. As lideranças são presas e algumas são deportadas. Era o fim da “primavera” operária curitibana. O patronato da Associação Comercial e das Lojas Maçônicas festejam o revés do operariado e tecem loas à atuação da Polícia.

A cidade se acalma, porém o movimento operário vai se transformar e em novembro de 1917 a classe trabalhadora conquistou o poder na então Rússia, constituindo o primeiro governo operário da história, dirigido pelos bolcheviques de Lenin. O fato transcendental configura uma mudança de qualidade no movimento operário mundial, com consequências no Brasil.

A partir desse momento, o movimento operário paulatinamente supera a fase do mutualismo, do anarco-sindicalismo e adota a perspectiva do socialismo em vários segmentos e categorias das massas trabalhadoras sem, no entanto, derrotar a influência de correntes reformistas e pelegas que disputavam a direção dos sindicatos operários.

O maior tributo aos pioneiros de 1917 que o atual movimento sindical deveria realizar é uma renovação ampla e profunda das práticas e de condutas de ação diante dos imensos desafios postos ao mundo do trabalho na contemporaneidade: as reformas laborais em escala mundial, a introdução de novas tecnologias na esfera produtiva, as novas e precárias modalidades de trabalho, o deslocamento e a dispersão dos centros fabris, a tendência permanente de queda das taxas de sindicalização e o esvaziamento da representatividade das organizações sindicais são questões que exigem uma nova tentativa de “assalto aos céus” como fizeram os lutadores de 1917.

*Fontes consultadas: Livro “A Greve Geral de 17 em Curitiba de autoria e Ricardo Marcelo Fonseca e Mauricio Galeb, Ibert, 1996.

*Textos sobre a greve geral de 1917 do Arquivo Edgard Leuenroth

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