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Especial – Presidenciais francesas: reflexões e perspectivas

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Neste texto, Jorge Martins analisa o contexto político e cenários de transferência de voto entre a primeira e segunda voltas das presidenciais em França. Deixa também um modelo de cálculo para os leitores fazerem as suas projeções. 

Carnal francês, por Sebastien Nogier, EPA/Lusa
Carnaval francês, por Sebastien Nogier, EPA/Lusa

 

Por Jorge Martins – Esquerda.Net

O final do dia 21 de abril de 2002 trouxe um choque à França e a grande parte do mundo: Jean-Marie Le Pen, candidato da Frente Nacional, partido racista e xenófobo, nostálgico do regime de Vichy, passara à 2ª volta das eleições presidenciais francesas. Com 16,9% dos votos, o líder da extrema-direita ficara apenas atrás do presidente conservador Jacques Chirac, que obtivera 19,9% dos sufrágios, e eliminara, de forma surpreendente, o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, que se ficou pelos 16,2%.

Na altura, o desfecho foi visto como um terrível acidente político, só possível pela elevada dispersão do voto à esquerda. Com efeito, entre socialistas e seus tradicionais aliados social-liberais do Parti Radical de Gauche (PRG), ecologistas, socialistas de esquerda, comunistas e extrema-esquerda, oito candidatos (Jospin incluído) somaram, em conjunto, 43,0% dos votos válidos, valor mais que suficiente para que um deles estivesse presente na 2ª volta. Somava-se a isso o aumento da abstenção, que atingiu 28,4% dos eleitores inscritos.

Mas a verdade é que o resultado de Le Pen vinha na sequência de um conjunto de bons resultados do partido. Após ter ficado muito perto dos 10% nas legislativas de 1986 e 1988, a FN ficara acima dos dois dígitos desde o início dos anos 90. E, nas duas presidenciais anteriores, o seu líder obtivera, respetivamente, 14,4% e 15,0%, respetivamente.

Por isso, à esquerda e à direita, soaram os alarmes. Assim, apesar de Chirac ser um presidente impopular, a braços com acusações de corrupção, a verdade é que, dos ruralistas reacionários e dos cristãos conservadores à extrema-esquerda ninguém hesitou um momento: havia que travar a extrema-direita e, para tal, mobilizar toda a gente para votar no líder da direita gaullista, mesmo que isso significasse “engolir um grande sapo”. Como diriam alguns militantes de esquerda, entre o desiludido e o resignado, “vamos votar num ladrão contra um fascista”.

A chamada “frente republicana” funcionou em pleno e, duas semanas depois, Chirac era reeleito com uns esmagadores 82,2%, contra 17,8% de Le Pen. O resultado deste foi inferior à soma dos seus votos com os de Bruno Mégret, o outro candidato da extrema-direita presente na 1ª volta, onde obteve 2,3% dos sufrágios. Para tal contribuiu o aumento da participação eleitoral de votantes antilepenistas, reudizindo a abstenção para 20,3%.

Quinze anos volvidos, voltamos a ter um cenário aparentemente idêntico: a esquerda foi eliminada da 2ª volta e nestas defrontam-se um candidato centrista, Emmanuel Macron, e a líder da FN, Marine Le Pen, filha do candidato derrotado em 2002. Porém, desde então, muito mudou e o cenário atual é bastante diferente.

Na verdade, ao invés de 2002, apenas os candidatos apoiados pelos dois partidos tradicionais, François Fillon (da direita conservadora dos Les Rrepublicains) e Benoît Hamon (Parti Socialiste) apelaram, desde logo, de forma explícita ao voto no adversário de Le Pen. O candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon, recusou-se a fazê-lo, afirmando que a opção de voto do seu movimento (a France Insoumise) seria decidida através de uma consulta aos seus militantes, onde estes poderiam escolher entre o voto em Macron, o voto branco ou nulo e a abstenção. Nesta, apenas 35% das respostas foram no sentido do apoio ao candidato centrista. Entretanto, Jacques Cheminade, do unipessoal Solidarité et progrès (S&P), apenas aconselhou os eleitores a não votar em Le Pen. Por seu turno, Nathalie Arthaud (da Lutte Ouvrière, extrema-esquerda) fez o mesmo, mas apelou ao voto em branco. Esta será também a opção do ruralista Jean Lassalle (do movimento Résistons!) na 2ª volta. Já Philippe Poutou (Nouveau Parti Anticapitaliste), não deu indicação de voto, tal como François Asselineau (da Union Populaire Républicaine, direita nacionalista), afirmando apenas que ambos são péssimos. Já Nicolas Dupont-Aignan (Debout La France) fez um acordo com Marine Le Pen: em troca do seu apoio na 2ª volta, esta nomeá-lo-á primeiro-ministro em caso de vitória nas presidenciais.

A questão que se coloca é, então: o que explica esta mudança? As causas são diversas e vamos agora elencá-las:

1º) A crise económica de 2008 mostrou, de forma nua e crua, a face desumana do capitalismo neoliberal.

Com efeito, em 2002, ainda se vivia um período de relativa prosperidade sustentado pelo crédito, o que mantinha o apoio das classes médias ao sistema. É certo que já então se registavam elevadas taxas de desemprego, que eram responsáveis por algum mal-estar social e facilitavam a retórica anti-imigração. Acresce, ainda, a crescente desafeição face à classe política, fruto dos sucessivos escândalos de corrupção que iam sendo conhecidos. Tudo isto explica, não só a elevada votação da extrema-direita (Jean-Marie Le Pen e Bruno Mégret, juntos, quase chegaram aos 20%) e da direita tradicionalista (com mais de 5%), mas também dos candidatos à esquerda do PS (mais de 18%) e ecologistas (que chegaram aos 7%). Mas, embora descontente com o sistema, a maioria do eleitorado achava que, apesar de tudo, nada seria pior que a ascensão ao poder da extrema-direita.

A partir de 2008, as políticas austeritárias levadas a efeito pelos sucessivos governos (tanto da direita como do PS) causaram ainda mais desemprego e o progressivo empobrecimento das classes médias. Mesmo que a crise não tenha atingido tão grandes proporções como no sul da Europa, teve como consequência a crescente perda de popularidade das forças políticas tradicionais, entretanto convertidas ao neoliberalismo. É preciso notar que a direita francesa, em geral, nunca foi adepta de um capitalismo liberal puro e duro, preferindo sempre, na tradição colbertista, alguma intervenção estatal na economia. Foi nessa tradição que se filiaram as políticas económicas das formações gaullistas. Porém, ela foi abandonada quando Sarkozy assumiu a liderança do partido atualmente designado por Les Républicains e abraçou as conceções económicas neoliberais. Por seu turno, os socialistas iniciaram a sua deriva rumo ao social-liberalismo ainda nos anos 80, com Rocard, continuaram-na com Jospin (o seu ministro das finanças foi Dominique Strauss-Kahn, futuro diretor do FMI) e aprofundaram-na com Hollande e Valls.

Daí que, apesar da ameaça de triunfo da extrema-direita ser hoje muito maior que há 15 anos atrás, há muito mais gente que, à direita mas também à esquerda, tenha cada vez mais dificuldade em votar num candidato como Macron, ex-banqueiro e típico representante da casta política e financeira que tem governado o país em seu favor e em desfavor da maioria da população.

2º) A UE passou a ser percecionada pela maioria como parte do “lado negro” das políticas económicas.

Apesar de a França ser um dos países fundadores da União Europeia, esta é tudo menos consensual entre os franceses. Na verdade, o processo de integração europeia sempre enfrentou grande resistência, tanto à direita como à esquerda. De Gaulle, defensor da grandeur de la France, mostrou, no início, grande ceticismo, pois via nele uma ameaça à soberania nacional. Porém, chegado ao poder, acabou por aceitá-lo, vendo-o como a melhor forma de projetar a liderança francesa na Europa Ocidental e de manter a Alemanha ancorada a ela. Face ao crescimento económico desta, a relação franco-alemã passou a ser, como se dizia nos meios comunitários, resumida desta forma: “os franceses definem as políticas e os alemães passam o cheque”. A reunificação da Alemanha, em 1990, e os sucessivos alargamentos, em especial os últimos, ao leste do continente, alteraram as relações de força no seio da UE. Ironicamente, a criação do euro, condição imposta por Mitterrand a Kohl para aceitar que passasse a existir um único Estado alemão, acabou por ter um papel essencial na hegemonia económica e política teutónica, em detrimento da gaulesa. A progressiva passagem da “pequena Europa francesa” para a “grande Europa alemã” só agravou o mal-estar europeu do lado de cá do Reno, como comprovam os dois referendos sobre temáticas europeias realizados no “hexágono”: o primeiro, ao Tratado de Maastricht, em 1992, saldou-se por uma vitória tangencial do “sim”; o segundo, ao projeto de Constituição Europeia, em 2005 (três anos depois da reeleição de Chirac) por um triunfo do “não”, com 55% dos votos. Apesar disso, em 2002, a maioria dos franceses afirmava-se europeísta e a recente entrada em vigor do euro era vista, então, com um misto de desconfiança e de espectativa positiva.

Atualmente, as instituições europeias estão totalmente rendidas ao ordoliberalismo alemão e ao serviço do capital financeiro. A linguagem do neoliberalismo, com destaque para a exigência de “reformas estruturais” (leia-se, políticas económicas, sociais e laborais cada vez mais regressivas), a insensibilidade social e a arrogância face às escolhas democráticas dos povos impregnaram-nas de alto a baixo, como foi visível na execrável chantagem que exerceram sobre a Grécia. É certo que “a França é a França” (leia-se, a ela não se podem aplicar todas as regras europeias), como afirmou o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o país, desde sempre pouco amigo do liberalismo económico, tem resistido à adoção de medidas económicas mais agressivas, mas a verdade é que os franceses culpam as políticas europeias pelos problemas económicos e sociais nacionais. Daí que o discurso soberanista vá fazendo caminho. Embora estas presidenciais não possam ser vistas como um referendo à UE, a verdade é que os resultados eleitorais mostram que os candidatos assumidamente europeístas (Macron, Fillon e Hamon) somaram pouco mais de 50% dos votos. Não é por acaso que, desde o passado fim de semana, na campanha para a 2ª volta, Macron alterou o seu discurso europeu, passando a defender uma reforma profunda da UE para evitar que esta acabe por implodir. Truque eleitoral? Num político (de) plástico como ele, é quase certo que sim. Mas, mesmo assim, mostra ter percebido que, neste tema, uma defesa do “status quo” europeu não é popular entre a maioria do eleitorado.

3º) Marine Le Pen não é igual do pai e Macron é diferente de Chirac.

Um aspeto fundamental que explica a diferença do quadro político face a 2002 é a diferença entre os protagonistas.

Jean-Marie Le Pen, para além da retórica anti-imigração, que lhe granjeava muitos apoios, era portador de um discurso provocatório e incendiário, antissemita, com reminiscências nazi-fascistas, nostálgico do regime colaboracionista de Vichy, que provocava uma acentuada rejeição entre todos os que se lhe opunham. Quem não se lembra da sua afirmação de que “os campos de concentração nazis foram um pormenor da História”? Por seu lado, do ponto de vista económico, apesar de se opor à globalização e à UE, era portador de uma mensagem próxima do neoliberalismo (o seu modelo era Pinochet!…), o que levava a uma grande desconfiança por parte de muitos dos mais pobres e dos trabalhadores do setor público. Ora, a sua filha, apesar de manter a mesma abordagem racista e xenófoba, afastou-se das referências nazi-fascistas mais óbvias e declarou a sua fidelidade às instituições democráticas, numa estratégia que ficou conhecida por “desdiabolização”. Por outro lado, trocou o antissemitismo pela islamofobia, hoje muito mais presente na sociedade francesa (ou seja, atualizou o objeto do ódio, adequando-o ao espírito do tempo). Mas, mais importante, passou a ser uma feroz crítica do neoliberalismo e, simultaneamente, adotou um discurso “social”, que casa bem com a sua defesa intransigente da adoção de políticas protecionistas e a sua oposição frontal à globalização e ao processo de integração europeia. É isso que explica o seu crescente sucesso entre os trabalhadores, em especial junto do operariado.

Por seu turno, Jacques Chirac, apesar de, teoricamente, estar mais à direita que Macron, filiava-se na tradição gaullista, de defesa da independência nacional e da influência francesa no mundo, que retirava espaço aos nacionalistas puros e duros e, do ponto de vista económico, a um capitalismo com forte intervenção do Estado, na já referida tradição colbertista da direita francesa, e a manutenção de um mínimo de direitos sociais. Ora, Macron é um ex-banqueiro (esteve no Banco Rothschild), defensor do neoliberalismo e das políticas austeritárias e antissociais defendidas pelas instituições europeias. Não por acaso, é o preferido destas e do governo alemão, que não tiveram pejo em manifestar-lhe o seu apoio logo na 1ª volta das eleições. O ex-ministro da Economia é visto por muitos como um dos responsáveis por políticas que têm no ataque aos salários e pensões, no aumento do tempo de trabalho, na redução dos direitos laborais, no corte dos subsídios de desemprego e na degradação e privatização dos serviços públicos o seu “santo e senha”, com a consequente redução dos padrões de vida da maioria da população. E a verdade é que ele foi o principal autor da regressiva lei do trabalho aprovada pelo governo de Valls, cuja designação popular é, precisamente, “lei Macron”. Não admira, pois, que uma parte significativa do eleitorado de esquerda e, também, da direita mais tradicional tenha grande relutância em apoiá-lo na 2ª volta, mesmo que contra uma candidata da extrema-direita.

4º) O descrédito da maioria da classe política e das instituições.

Ao contrário do que muitos possam pensar, a corrupção na Europa Ocidental não é um exclusivo dos países do sul. A verdade é que, desde há muito, na “fotografia” da Transparência Internacional (uma associação que publica, anualmente, um índice sobre a perceção da corrupção em todos os países do mundo), a França fica pouco melhor que os dois Estados ibéricos. É certo que, em 2002, não apenas Chirac (acusado de uso indevido de fundos públicos enquanto “maire” de Paris   para financiar o seu partido), mas parte significativa das altas esferas (e não só!…) da política francesa já tinha estado envolvida em escândalos de corrupção. Lembramo-nos de Giscard d’Éstaing e dos diamantes do ditador centro-africano Bokassa ou dos escândalos do financiamento das campanhas eleitorais de Mitterrand, também com conexões africanas, e onde esteve envolvido um dos seus filhos.

Mas a verdade é que a situação tem vindo a agravar-se. Sarkozy também não escapou a acusações idênticas: teria favorecido o grupo de cosméticos L’Óreal em troca do financiamento da sua campanha presidencial de 2007. Hollande, apesar de não aparecer envolvido nestes escândalos, também tem alguns episódios pouco recomendáveis, como o salário principesco do seu cabeleireiro ou a utilização de seguranças do Eliseu no esquema caricato que engendrou para se encontrar com a amante. Alguns ex-primeiros-ministros (como Alain Juppé), ministros, conselheiros regionais e departamentais e presidentes de Câmara também estiveram ou estão a contas com a justiça. Nesta campanha presidencial, o “Penelopegate”, em que Fillon foi acusado de empregar ficticiamente a sua mulher e os dois filhos como assessores parlamentares remunerados, é apenas mais um sintoma da doença que corrói as instituições.

Também sobre Macron surgiram algumas suspeitas de fuga ao fisco, através da subavaliação do seu património, e de favorecimento de uma empresa enquanto ministro da Economia, embora, para já, sem grandes desenvolvimentos. Tudo isto leva muitos franceses a considerar que não vale a pena votar num candidato que faz parte de um sistema que veem como corrupto, mesmo para barrar a extrema-direita. Não é que Le Pen esteja acima de qualquer suspeita. Foi também acusada, pelo Parlamento Europeu, de utilização de verbas para remunerar dois assessores fictícios, num esquema muito semelhante ao de Fillon. Mas a verdade é que, face ao descrédito da UE e dos principais jornais (cada vez mais controlados pelos grandes grupos económicos) entre os seus apoiantes, maioritariamente pouco escolarizados, é-lhe fácil convencê-los de que é vítima de uma campanha de calúnias para a desacreditar.

5º) A perda da memória da ocupação e do regime de Vichy.

Em 2002, tinham passado 62 anos sobre o início da ocupação nazi e 58 sobre a libertação, o que significa que ainda havia muitas pessoas que, de forma direta ou indireta (através da perda de alguns familiares, de relatos dos seus pais ou outros membros da família, vizinhos e amigos, da “caça” e julgamento dos colaboracionistas e das dificuldades económicas do pós-guerra), tinham uma memória desses tempos sinistros. Ora, a lei inexorável da vida faz com que, hoje, 77 anos passados sobre a primeira e 73 sobre a segunda, haja cada vez menos gente com esse tipo de recordações. Logo, a retórica antifascista é hoje muito menos eficaz para convencer as gerações mais novas a votar contra a extrema-direita. Não é por acaso que onde o voto em Le Pen cai drasticamente é entre os maiores de 65 anos!…

Claro que poderíamos falar também do aumento do número de imigrantes e refugiados, fruto da desestabilização política e das guerras no mundo árabe e muçulmano ou da pobreza endémica de um grande número de africanos ou, ainda, dos atentados terroristas do Estado Islâmico, que dão força ao discurso racista e xenófobo da FN. E a forma hipócrita e cobarde como as forças do “centrão” lidam com o problema, fazendo concessões à extrema-direita nas políticas de imigração e de segurança (por exemplo, o estado de emergência, decretado por Hollande desde os atentados de Paris, em 2013, continua em vigor) permitindo que o tema se torne central na agenda política, só o reforça. Mas isso, se explica o aumento do apoio a Marine Le Pen, não é tão essencial na assumida relutância de muitos democratas a votar no candidato liberal apenas para impedir a sua vitória.

Perante este quadro, o que podemos esperar para domingo?

 

MATRIZ DE TRANSFERÊNCIA DE VOTOS PARA A 2ª VOLTA

(EM % RELATIVAMENTE AO TOTAL DE VOTOS OBTIDOS POR CADA CANDIDATO E PELO CONJUNTO DE VOTOS BRANCOS OU NULOS E ABSTENÇÕES)

Macron Le Pen Fillon Mélenchon Hamon D.-Aignan Lassalle Poutou Asselineau Arthaud Cheminade B+N+Abst
Macron

100

0

45

50

75

20

30

25

20

25

30

8

Le Pen

0

100

30

15

5

50

20

15

40

15

10

2

B+N+Abst

0

0

25

35

20

30

50

60

40

60

60

90

TOTAL

100

100

100

100

100

100

100

100

100

100

100

100

QUADRO 1

MATRIZ DE TRANSFERÊNCIA DE VOTOS PARA A 2ª VOLTA

(EM % DE VOTOS RECEBIDOS, BRANCOS, NULOS OU ABSTENÇÕES RELATIVAMENTE AO Nº DE ELEITORES INSCRITOS NA 1ª VOLTA)

Macron Le Pen Fillon Mélenchon Hamon D.-Aignan Lassalle Poutou Asselineau Arthaud Cheminade B+N+Abst

TOTAL

FINAL

Macron

18,2

0,0

6,8

7,4

3,6

0,7

0,3

0,2

0,1

0,1

0,0

1,9

39,5

60,2

Le Pen

0,0

16,1

4,5

2,2

0,2

1,8

0,2

0,1

0,3

0,1

0,0

0,5

26,1

39,8

B+N+Abst

0,0

0,0

3,8

5,2

1,0

1,1

0,5

0,5

0,3

0,3

0,1

21,8

34,4

TOTAL

18,2

16,1

15,2

14,8

4,8

3,6

0,9

0,8

0,7

0,5

0,1

24,2

100,0

FINAL

24,0

21,3

20,0

19,6

6,4

4,7

1,2

1,1

0,9

0,6

0,2

100,0

QUADRO 2

NOTA 1: As percentagens que aparecem sob a designação de “total” têm como referência a totalidade dos eleitores inscritos, incluindo votos brancos ou nulos e abstenções.
NOTA 2: As percentagens que aparecem sob a designação de “final” têm como referência apenas a totalidade dos votos válidos, não incluindo votos brancos ou nulos e abstenções.

Depois de ter ganho o duríssimo debate com a sua adversária, na passada quarta-feira, tudo indica que Macron vencerá as eleições, mas, ao contrário de Chirac, não por goleada. Atendendo às sondagens (que, na 1ª volta, acertaram em cheio nos resultados), vamos procurar ver de que forma se processarão as transferências de voto de um turno para o outro. Para o efeito, apresento, em anexo, dois quadros, que podem ser consultados e que vou passar a explicar.

Considerando as opções dos eleitores dos candidatos eliminados, é entre os do socialista Benoît Hamon que a opção por Macron é mais clara: 75% optarão por ele, 5% por Le Pen e 20% por nenhum (o que significa abstenção, voto branco ou nulo).

À esquerda, a estratégia de Mélenchon, de não apelar diretamente ao voto em Macron e formar uma “frente republicana” para barrar Le Pen, tal como em 2002, tem sido muito criticada, mesmo por muitos camaradas. Por exemplo, o secretário-geral do PCF, Pierre Laurent, declarou que votará no ex-ministro da Economia. Mas a verdade é que ela revela inteligência. Ao tomar essa atitude, o líder da França Insubmissa não cai na armadilha da bipolarização pretendida pela candidata da FN (“nós contra os do sistema”). Assim, mantém a autonomia do espaço da esquerda, que se constitui como uma terceira força, em oposição tanto ao neoliberalismo como à extrema-direita. No fundo, marca o território e avisa o “centrão” que, para derrotar o populismo reacionário, não tem o eleitorado da esquerda “no bolso” e que este não está disposto a “engolir sapos” eternamente. Por outro lado, o resultado da consulta interna aos aderentes da FI, mostrando que uma clara maioria destes se inclina para não votar ou, em alternativa, fazê-lo em branco ou anular o voto, valida a sua estratégia. É claro que ela apresenta algum risco, mas parece-me um risco calculado. Acredito que, se as sondagens mostrassem um resultado mais apertado, Mélenchon tomaria uma posição diferente. Em todo o caso, e mesmo sem uma clara indicação de voto, acredito que cerca de 50% dos seus eleitores optem por Macron, 15% por Le Pen e 35% por nenhum.

À direita, entre os eleitores de Fillon, as coisas também não são totalmente pacíficas. Apesar do apoio imediato do candidato a Macron, logo após a sua eliminação na 1ª volta, algumas figuras do LR defenderam a neutralidade do partido na 2ª volta. Por sua vez, vários setores católicos conservadores que o apoiaram, entre os quais o pequeno partido cristão-democrata (PCD) apelam ao voto em Le Pen. A sua presidente honorária, Christine Boutin, que, em 2002, foi candidata presidencial, obtendo 1,2% dos votos, deu, então, indicação de voto em Chirac no 2º turno. Agora, apoia abertamente a candidata da FN. Assim, não surpreende que só cerca de 45% dos votantes de Fillon deverão apoiar Macron, enquanto Le Pen terá o voto de aproximadamente 30% e os restantes 25% não optarão por qualquer candidato.

Também os eleitores de Dupont-Aignan estão divididos. Apesar deste ter dado apoio explícito a Le Pen, a verdade é que uma grande parte dos seus eleitores na 1ª volta não subscreve essa posição. Uns, que, inicialmente, apoiavam Fillon e o abandonaram devido ao “Penelopegate”, consideram as propostas da FN demasiado radicais; outros, que, perante as acusações de apropriação indevida de fundos do Parlamento Europeu que pendem sobre Marine, se voltaram para o candidato da direita nacionalista, rejeitam abertamente votar nela. Mesmo entre os militantes do seu partido, o DLF, a opção não é consensual. Assim, só perto de 50% dos seus eleitores seguirá a opinião do candidato e votará em Le Pen. Dos restantes, 20% apoiarão Macron e 30% nenhum.

Relativamente os outros concorrentes eliminados no 1º turno, não há dados fiáveis, mas arrisco uma previsão, com base nas posições políticas destes e na composição dos respetivos eleitorados.

Assim, na extrema-esquerda, tudo indica que cerca de 60% dos eleitores de Poutou e Arthaud não deverão apoiar qualquer candidato, 25% votarão em Macron e 15% em Le Pen.

Por seu turno, metade dos que votaram em Lassalle não optarão por nenhum, 30% irão para Macron e 20% para Le Pen. Entre os votantes de Asselineau, 40% não apoiarão qualquer deles e outros tantos apoiarão Le Pen, sobrando os restantes 20% para Macron. Mais difícil é prever o que farão os poucos eleitores de Cheminade: 60% não optarão por ninguém, 30% elegerá Macron e 10% Le Pen é a minha aposta.

Resta, ainda, saber qual a percentagem de abstencionistas que se mobilizarão para votar na 2ª volta. Admitindo que, para muitos eleitores, esta serve mais para rejeitar um candidato indesejado que para escolher o seu favorito e que Le Pen tem índices de rejeição mais elevados que Macron, admito que, depois  do debate televisivo, cerca de 8% do conjunto de abstenções, votos brancos ou nulos na 1ª volta opte por Marcon e apenas 2% apoie Le Pen. Até porque as sondagens desfavoráveis têm, normalmente, um efeito desmobilizador sobre o potencial eleitorado de um candidato. Mas, aqui, a previsão não é fácil e pode, mesmo, condicionar os resultados dos inquéritos.

Como podemos ver no 2º quadro em anexo, de acordo com o meu modelo de transferência de voto, Macron obterá 60,2 % dos votos válidos, ficando Le Pen com os restantes 39,8%, o que significa um intervalo entre os 59 e os 61% para o primeiro e entre os 39 e os 41% para a segunda. A amplitude do seu triunfo dependerá, essencialmente, dos níveis de abstenção. O conjunto desta mais os votos brancos ou nulos terão uma subida significativa, passando de 24,2 para os 34,4%, segundo os meus cálculos, pelo que podemos fazer uma projeção entre os 32 e os 36%. Ou seja, atingirá cerca de um terço do eleitorado.

Entretanto, deixo-vos um ficheiro Excel, com esses quadros a zero, onde poderão fazer os vossos prognósticos. Então, camaradas leitores/as, enquanto aguardamos por domingo, faites vos jeuxs!

Jorge Martins

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