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In memoriam: Meu pai [1936-2017]

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Não quero que este texto tenha um tom de obituário, é apenas um registro de alguns momentos, de algumas passagens da minha convivência e amizade com o ‘velho Bené’, como então passei a me dirigir ao meu pai nos últimos anos num misto de jocosidade ou de reverência (quem sabe…)

Lembranças: A baía do Guajará, vista próxima à foz do rio Guamá

Cearense, nascido na cidade do Crato (CE), região do Cariri, veio para o Pará num deslocamento de toda família, assolada por uma severa seca que atingiu a região no final dos anos 40. Era uma família de pequenos agricultores dedicada ao cultivo de subsistência, ao pastoreio, e a venda de alguns produtos como feijão, milho e mel; tinham algumas cabras e vacas de leite. Eram comandados pelos meu avós paternos, José ‘Gregório’ (diziam os meus tios e o meu pai que o ‘cabra’ era duro quem nem uma rocha e devoto/eleitor de Padim Cíço) e Isabel, de uma grande doçura, diziam – não os conheci em vida.

No Pará, se instalaram na cidade de Capanema e depois os irmãos mais velhos (e meu pai) foram morar e trabalhar em Belém, onde conheceu e casou com minha mãe, uma união conjugal que dura mais de 50 anos.

Minhas recordações de infância com ele são, principalmente, as idas ao mercado do Ver-O-Peso, 7, 8, 9 anos, aos domingos. Era uma festa para uma criança em meio aquela imensidão de gente e me agradava muito tomar café com leite condensado e tapioca molhada no leite de coco, coisa que faço até hoje quando estou em Belém. Também recordo das idas ao parque de diversão, situado no entorno da Basílica de Nazaré, durante os festejos do Círio. Lembro também das férias em Soure, no Marajó, quando viajávamos no navio Presidente Vargas que, singrando a baía do Guajará, de águas verde-marrom, atingia um pequeno pedaço azulado do Atlântico, para depois chegar aos sistemas de baías e furos da Ilha do Marajó, terra de praias paradisíacas como a de Pesqueiro, selvagem na época, cheia de búfalos e jacarés. Foi um período de dois anos (72, 73) que meu pai trabalhou na região e nos levava para passear durante as suas folgas.

Não era de acompanhar de perto o nosso desempenho escolar, porém me matriculou numa boa escola particular religiosa, onde cursei os primeiros nove anos de ensino. Um privilégio que foi assegurado só ao filho primogênito. Apesar de papai ter estudado apenas até ao quarto ano do primário, era um leitor dedicado de jornais e livros, o que me despertou a curiosidade e a disposição para a leitura desde pequeno. Um dos seus maiores esforços, e bem sucedido, foi garantir a escolaridade de todos os oitos filhos (as), do primário até o ensino universitário, dos oito, sete concluíram um ou mais cursos universitários. Ele tinha muito orgulho disso.

Já na minha adolescência pintou a preocupação dele com a minha virgindade e numa abordagem tradicional me convocou para visitar a “zona” (risos), ambiente em que seria iniciado nas artes do sexo e no conhecimento das mulheres, segundo ele. Eu, já envolvido com uma incipiente militância, driblei os diversos convites e fui ter as minhas primeiras experiências sexuais fora do ambiente tradicional da prostituição. Nesta época, 78, 79, iniciei uma militância orgânica no movimento estudantil secundarista, o que provocou no início intensas discussões entre nós, até com ameaças de expulsão de casa, mas a coisa foi se acalmando, ele foi aceitando, depois passou até a apoiar e admirar a minha militância e a dos meus irmãos. Acredito, sobretudo, que tinha as preocupações no sentido do cuidado e da minha proteção, porém sempre respeitou a minha opção e autonomia. No final de 83, já com vinte anos, mudei para o Rio de Janeiro. Uma decisão que ele aceitou,  já minha mãe ofereceu muitas resistências.

Durante todos esses anos, mesmo de longe, alternando período de visitas com contatos à distância, sempre cultivamos uma profunda relação de amizade e cumplicidade – para ser mais exato. Ao longo do tempo, fomos nos tornando confidentes um do outro, e falávamos de tudo, não havia segredo, era uma relação franca, bacana mesmo, que se transformou numa grande e verdadeira amizade.

Havia muitas outras coisas para dizer e escrever, mas emoção me turva um pouco a memória, todavia acredito que disse o essencial do Benedito e de sua longa e vívida existência. Um Homem que cumpriu a sua missão por aqui, que nos transmitiu os melhores valores e ensinamentos, que foi também responsável por tudo que sou hoje. Que viveu até o fim a serviço da família e amando a todos por igual.

Valeu, pai!

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  1. Gilson Afonso de Medeiros Lima

    Soube agora e fiz esse comentário no “feice”: “Frequentei a tua casa no tempo de secundarista, dormi algumas vezes lá por convite do Fernando. Sempre recebido com carinho. Lembro do jeito simples, humilde, meio calado quando também o encontrava lá no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Meus sentimentos.” É uma pena, fica a saudade. Um grande e forte abraço.

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  2. Emocionada com suas lembranças, Milton! Fique em paz!

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