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Arquivo do mês: fevereiro 2017

In memoriam: Meu pai [1936-2017]

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Não quero que este texto tenha um tom de obituário, é apenas um registro de alguns momentos, de algumas passagens da minha convivência e amizade com o ‘velho Bené’, como então passei a me dirigir ao meu pai nos últimos anos num misto de jocosidade ou de reverência (quem sabe…)

Lembranças: A baía do Guajará, vista próxima à foz do rio Guamá

Cearense, nascido na cidade do Crato (CE), região do Cariri, veio para o Pará num deslocamento de toda família, assolada por uma severa seca que atingiu a região no final dos anos 40. Era uma família de pequenos agricultores dedicada ao cultivo de subsistência, ao pastoreio, e a venda de alguns produtos como feijão, milho e mel; tinham algumas cabras e vacas de leite. Eram comandados pelos meu avós paternos, José ‘Gregório’ (diziam os meus tios e o meu pai que o ‘cabra’ era duro quem nem uma rocha e devoto/eleitor de Padim Cíço) e Isabel, de uma grande doçura, diziam – não os conheci em vida.

No Pará, se instalaram na cidade de Capanema e depois os irmãos mais velhos (e meu pai) foram morar e trabalhar em Belém, onde conheceu e casou com minha mãe, uma união conjugal que dura mais de 50 anos.

Minhas recordações de infância com ele são, principalmente, as idas ao mercado do Ver-O-Peso, 7, 8, 9 anos, aos domingos. Era uma festa para uma criança em meio aquela imensidão de gente e me agradava muito tomar café com leite condensado e tapioca molhada no leite de coco, coisa que faço até hoje quando estou em Belém. Também recordo das idas ao parque de diversão, situado no entorno da Basílica de Nazaré, durante os festejos do Círio. Lembro também das férias em Soure, no Marajó, quando viajávamos no navio Presidente Vargas que, singrando a baía do Guajará, de águas verde-marrom, atingia um pequeno pedaço azulado do Atlântico, para depois chegar aos sistemas de baías e furos da Ilha do Marajó, terra de praias paradisíacas como a de Pesqueiro, selvagem na época, cheia de búfalos e jacarés. Foi um período de dois anos (72, 73) que meu pai trabalhou na região e nos levava para passear durante as suas folgas.

Não era de acompanhar de perto o nosso desempenho escolar, porém me matriculou numa boa escola particular religiosa, onde cursei os primeiros nove anos de ensino. Um privilégio que foi assegurado só ao filho primogênito. Apesar de papai ter estudado apenas até ao quarto ano do primário, era um leitor dedicado de jornais e livros, o que me despertou a curiosidade e a disposição para a leitura desde pequeno. Um dos seus maiores esforços, e bem sucedido, foi garantir a escolaridade de todos os oitos filhos (as), do primário até o ensino universitário, dos oito, sete concluíram um ou mais cursos universitários. Ele tinha muito orgulho disso.

Já na minha adolescência pintou a preocupação dele com a minha virgindade e numa abordagem tradicional me convocou para visitar a “zona” (risos), ambiente em que seria iniciado nas artes do sexo e no conhecimento das mulheres, segundo ele. Eu, já envolvido com uma incipiente militância, driblei os diversos convites e fui ter as minhas primeiras experiências sexuais fora do ambiente tradicional da prostituição. Nesta época, 78, 79, iniciei uma militância orgânica no movimento estudantil secundarista, o que provocou no início intensas discussões entre nós, até com ameaças de expulsão de casa, mas a coisa foi se acalmando, ele foi aceitando, depois passou até a apoiar e admirar a minha militância e a dos meus irmãos. Acredito, sobretudo, que tinha as preocupações no sentido do cuidado e da minha proteção, porém sempre respeitou a minha opção e autonomia. No final de 83, já com vinte anos, mudei para o Rio de Janeiro. Uma decisão que ele aceitou,  já minha mãe ofereceu muitas resistências.

Durante todos esses anos, mesmo de longe, alternando período de visitas com contatos à distância, sempre cultivamos uma profunda relação de amizade e cumplicidade – para ser mais exato. Ao longo do tempo, fomos nos tornando confidentes um do outro, e falávamos de tudo, não havia segredo, era uma relação franca, bacana mesmo, que se transformou numa grande e verdadeira amizade.

Havia muitas outras coisas para dizer e escrever, mas emoção me turva um pouco a memória, todavia acredito que disse o essencial do Benedito e de sua longa e vívida existência. Um Homem que cumpriu a sua missão por aqui, que nos transmitiu os melhores valores e ensinamentos, que foi também responsável por tudo que sou hoje. Que viveu até o fim a serviço da família e amando a todos por igual.

Valeu, pai!

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Reitoria e entidades da comunidade universitária divulgam nota em defesa da UFPR

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A Reitoria da Universidade Federal do Paraná e três entidades que representam professores e servidores divulgaram nesta quarta-feira (22) uma nota conjunta em defesa da instituição. O documento é assinado pela Reitoria, a Associação dos Professores da UFPR (Apufpr-Ssind), o Sindicato dos Trabalhadores em Educação das IFES no Estado do Paraná (Sindtest) e a Associação dos Servidores da UFPR (Asufepar).

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O texto ressalta a necessidade de defender a história e o papel da UFPR, ao mesmo tempo em que reafirma que haverá apuração rigorosa de irregularidades constatadas na universidade, que indignaram toda a comunidade acadêmica. Além disso, consolida o compromisso da Universidade com os direitos sociais e individuais, em particular os que preveem o direito à ampla defesa e à presunção de inocência.

A Reitoria e as entidades que subscrevem a nota entendem que o momento exige a união de todas e de todos. Por isso, integre-se a este movimento e compartilhe.

Abaixo a íntegra da nota.

TODOS UNIDOS PELA UFPR

A Universidade Federal do Paraná é um dos maiores valores da sociedade paranaense. Ao longo de seus 104 anos de história, tornou-se a principal referência na formação de muitas gerações, foi protagonista do desenvolvimento de nosso Estado e foi e é palco de debate e de resistência em vários períodos de opressão de nossa história. É a principal reserva da produção e reprodução de conhecimento de qualidade, no ensino, na pesquisa e na extensão. Foi, segundo já foi dito e repetido, “a maior invenção dos paranaenses”. E ocupa papel central na vida da nossa sociedade, e em particular na vida dos (as) estudantes, servidores (as) técnicos e docentes que formam a comunidade universitária.

Por isso, especialmente nesse momento difícil que passamos, temos que sair em defesa do patrimônio público de nossa instituição, mostrar nossa indignação quanto a descaminhos que aqui ocorram e agir com rigor para que os malfeitos sejam corrigidos e que crimes contra nosso patrimônio sejam responsabilizados.

Mas justamente nesse momento é necessário também reafirmar com toda a força o papel essencial exercido pela Universidade Federal do Paraná há mais de um século na formação profissional, cidadã e intelectual de tantas gerações, bem como insistir no papel transformador e de inclusão que ela representa na vida de milhares de pessoas que aqui, hoje ou ontem, trabalharam e estudaram. É necessário, mais do que nunca, ressaltar e defender sua história, seu papel e seus valores.

A Universidade Federal do Paraná é e deve continuar sendo, com o trabalho contínuo de todos (as) que fazem parte da sua comunidade, o espaço privilegiado do exercício ético, da produção de saberes de ponta, do exercício transformador permanente. Deve seguir sendo também o lugar da reafirmação perene do valor dos direitos e das garantias, de sua centralidade no cotidiano exercício democrático, de sua imprescindibilidade para os nossos padrões civilizacionais. Por isso, seguiremos reafirmando como inegociáveis os direitos sociais e individuais que estão consagrados em nossa Constituição da República, em particular os que exortam a dignidade humana, a presunção de inocência, o direito ao contraditório e à ampla defesa. Direitos que valem e devem valer para todos, como devem também valer para cada um de nossos (as) servidores (as) e estudantes.

Que todos os descaminhos eventualmente ocorridos dentro de nossos muros sejam elucidados e sofram as correções previstas em lei. Mas que também seja relembrado que estamos comprometidos com as regras do Estado Democrático de Direito, e que jamais seja esquecido o grande e imprescindível papel exercido pela nossa Universidade dentro de nossa sociedade.

Assinam:

Reitoria da Universidade Federal do Paraná • Gestão 2016/2020

Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR-SSIND)

Sindicato dos Trabalhadores em Educação das IFES no Estado do Paraná (SINDITEST)

Associação dos Servidores da Universidade Federal do Paraná (ASUFEPAR)

Fonte: Superintendência de Comunicação da UFPR

UFPR: Em lugar de tarifaço, redução no preço da comida do RU

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O reitor Ricardo Marcelo Fonseca, da UFPR, anunciou nesta quarta-feira (22) que caiu o preço do bandejão no Restaurante Universitário.  A medida teve intensa repercussão na comunidade universitária, principalmente entre os trabalhadores da instituição que utilizam os serviços do Restaurante Universitário, o RU.

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Via blog do Esmael

“A partir desta quarta-feira (22 de fevereiro), o valor do café da manhã passa de R$ 3,50 para R$ 2,50, e o preço do almoço e do jantar cai de R$ 6 para R$ 4,50”, escreveu o reitor nas redes sociais.

A redução no preço do ranjo para servidores da UFPR era uma promessa de campanha de Ricardo Marcelo.

Cerca de 4 mil técnico-administrativos serão beneficiados pela redução.

A UFPR conta com quatro restaurantes em Curitiba: Central, Centro Politécnico, Jardim Botânico e Agrárias, além de cinco restaurantes nos campi do interior: Litoral, Centro de Estudos do Mar, Palotina, Jandaia do Sul e Mirassol.

Em tempo de tarifaços, a portaria do reitor é uma ótima notícia e exemplo a ser seguido pelo mundo político.

*Artigo originalmente publicado no Blog do Esmael – postagem em 22/02/2017

Coluna: Tarifa engole Greca e Beto Richa x professores

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Nesta sexta-feira(17) foi ao ar a primeira coluna semanal (política & café) no site O gazeteiro, com uma grande audiência na região de Londrina, e pilotado pelo experiente jornalista Zé Roberto Alves. A coluna será publicada toda sexta-feira. Os temas abordados foram o tarifaço de Greca no transporte coletivo de Curitiba e a conturbada volta às aulas, com a possibilidade de greve do magistério em resposta ao calote do governo estadual. Confira!

OgazeteirO foi tomar um bom café com o jornalista Milton Alves. Os problemas do Transporte Coletivo e o reinicio das aulas foram os assuntos do cafezinho. Além…
OGAZETEIRO.COM.BR

UFPR divulga nota sobre operação da Polícia Federal

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A Autoridade Universitária divulgou nota sobre a operação da Polícia Federal deflagrada nesta quarta-feira(15) que investiga desvios e irregularidades na concessão de bolsas e auxílios na Universidade Federal do Paraná. Confira

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NOTA OFICIAL DA UFPR

 

Diante da operação deflagrada nesta quarta-feira pela Polícia Federal, a Universidade Federal do Paraná informa:

1.As suspeitas de irregularidades no pagamento de bolsas e auxílios são objeto de investigações internas na UFPR desde dezembro de 2016, quando a própria universidade também tomou a iniciativa de encaminhar o caso à Polícia Federal, para investigação criminal.

2. Assim que tomou conhecimento da suspeita de desvios de verba pública, em dezembro de 2016, a administração anterior da Reitoria determinou a abertura de sindicância para apurar responsabilidades. O procedimento é conduzido por uma comissão formada por dois professores e uma servidora técnico-administrativa e, por força de lei, corre em sigilo. O prazo para conclusão do trabalho é de 60 dias, prorrogáveis por mais 60. A previsão de término dos trabalhos é meados de abril de 2017.

3. As duas servidoras suspeitas de envolvimento no caso já estavam suspensas do exercício de suas atividades funcionais, nos termos da Lei 8112/90, por determinação do atual reitor, Ricardo Marcelo Fonseca.

4. O reitor Ricardo Marcelo Fonseca também já havia determinado, ainda em janeiro, a criação do Comitê de Governança de Bolsas e Auxílios, visando aperfeiçoar os mecanismos de controle sobre esse tipo de pagamento. Também está criada, por meio de portaria, uma comissão para trabalhar no Plano de Transparência e de Dados Abertos da Universidade, instrumento para garantir que a sociedade tenha acesso a todas as informações de caráter público.

5.A Universidade Federal do Paraná tomou todas as providências cabíveis para esclarecer os fatos e responsabilizar os eventuais envolvidos. Com o resultado da investigação, a UFPR solicitará a restituição dos valores ao erário.

6. A gestão do reitor Ricardo Marcelo Fonseca reafirma seu compromisso com a transparência e a ética. Reforça ainda que condena veementemente qualquer prática ilícita e que continuará colaborando com as investigações, tanto no âmbito do Tribunal de Contas da União quanto da Polícia Federal.

Fonte:Superintendência de Comunicação Social

PT, 37 anos: Unidade pela reconstrução do partido

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O PT completa 37 anos de existência, foi a maior agremiação política construída pela classe trabalhadora brasileira, um marco na história das lutas do povo trabalhador por um país mais democrático e justo. Neste momento, o PT debate o seu futuro, hora de todos os militantes, correntes e agrupamentos da legenda realizarem um profundo exame da trajetória política do partido.

 

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O PT enfrenta a fase mais difícil de sua existência. Uma poderosa coalizão de forças reacionárias promoveu um golpe de estado de novo tipo, através do impeachment da presidente Dilma Rousseff, e opera um processo de proscrição política do PT e do ex-presidente Lula. Uma operação de cerco e aniquilamento levada a cabo pelo governo golpista, os partidos da direita, o aparato jurídico-policial e a mídia corporativa, cujo objetivo é cada dia mais claro: impor as políticas exigidas pelo mercado financeiro, de ataques aos direitos dos trabalhadores e à soberania nacional.
O golpe, porém, foi muito facilitado pela política implementada pela direção do PT. Em nome da “governabilidade”, o partido manteve as alianças com inimigos da classe trabalhadora, mesmo quando esses inimigos caminhavam rapidamente para o golpe. O governo Dilma assumiu o ajuste fiscal de Levy e Barbosa, se aproximando do programa tucano. Por fim, adaptando-se às instituições carcomidas, nos 13 anos no qual governou o Brasil, e mesmo quando Lula teve alta popularidade, o PT deixou de fazer as reformas necessárias: política, tributária, agrária, urbana e dos meios de comunicação. 

O PT tem enormes desafios para animar a militância e recuperar a sua mística política. Aquele partido de militância, que organizava núcleos de base nos locais de moradia e trabalho, que nasceu “da decisão dos explorados de lutar contra um sistema econômico e político que não pode absorver os seus problemas, pois só existe para beneficiar uma minoria de privilegiados” (Manifesto de Fundação), perdeu, ao longo de um processo de adaptação e de acomodação institucional, seus profundos vínculos com a classe trabalhadora, com as massas pobres das periferias das cidades e do campo, com a intelectualidade, a classe média progressista e a juventude, forças que sustentavam o nosso projeto político e eleitoral.

Ao promover alianças com partidos da direita e se adaptar às estruturas eleitorais e institucionais baseadas nos financiamentos empresariais milionários de campanhas, aos olhos do povo, o PT foi se confundindo com os demais partidos que sempre criticou. Com o aprofundamento dos efeitos no Brasil da crise capitalista, com desinvestimento privado, desemprego e aumento do déficit público, o governo Dilma foi incapaz de sustentar um programa de enfrentamento ao falso consenso imposto pelo mercado, contrariando o conteúdo de campanha eleitoral da sua reeleição e aceitando o discurso da necessidade do ajuste fiscal.
Apesar da resistência ao golpe e ao governo ilegítimo de Temer, o PT e a esquerda não conseguiram reconquistar o apoio, a confiança e a identidade da classe trabalhadora, dos pobres e dos setores médios, inconformados com o ajuste fiscal implementado pelo governo Dilma/Levy e já impacientes com o adiamento por 13 anos das profundas mudanças sociais aspiradas. Tudo isso combinado com as ações da Operação Lava Jato, que atingiram fortemente a imagem do PT, levando para a cadeia parte da direção histórica do partido. Tal como quando da AP-470, o PT não foi capaz de denunciar o caráter da operação, voltada unicamente para estrangular o partido, as organizações dos trabalhadores e, assim, facilitar o golpe.
Resgatar os vínculos com essas classes e camadas do povo exige um novo reposicionamento político, a renovação de métodos e práticas e, sobretudo, um novo compromisso político, baseado na necessidade de um instrumento político que impulsione um projeto de sociedade inclusiva e transformadora. Enfim, um sujeito político da classe trabalhadora e do povo brasileiro para realizar as reformas estruturais necessárias e indispensáveis para a reconstrução do país em bases verdadeiramente democráticas. O que só pode ser feito por uma Assembleia Nacional Constituinte democrática e soberana, que dê a palavra ao povo e faça as reformas profundas exigidas pelo país.
Uma nova direção política do partido, em todas suas instâncias internas, terá o imenso desafio político de retomar o diálogo com esses setores populares e enfrentar o programa ultraliberal, antinacional e antipopular aplicado pelo governo golpista, para voltar a se tornar a esperança do povo brasileiro. Terá, portanto, que apontar, sem rodeios, para uma via de enfrentamento e resistência ao ajuste fiscal, às privatizações e aos ataques aos direitos trabalhistas e previdenciários em curso, voltando suas forças para a organização de base, dos sindicatos, dos coletivos, dos movimentos sociais e populares.
Ao mesmo tempo, revigorar a vida interna, valorizando a militância, ampliando a participação dos filiados nos mecanismos decisórios, via consultas diretas por meios digitais, de encontros deliberativos abertos e de retomada da nucleação de base dos petistas. Propomos que o Congresso do PT discuta o fim do PED como uma medida essencial para essa retomada, acabando com esse mecanismo que divide o partido, é “de cima para baixo” e impede o livre debate para fortalecermos nossa organização partidária.
Nestes 37 anos, o balanço da trajetória do partido exige também a unidade e o compromisso de todos pela reconstrução do PT.
Vida longa ao PT e sua combativa militância!

Até sempre, dona Marisa

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O blog reproduz o comovente artigo da jornalista Maria Inês Nassif sobre o significado da morte de dona Marisa Letícia Lula da Silva. Confira

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Por Maria Inês Nassif*

Não sei se um coração chora, mas a tristeza hoje é tanta que se torna lágrima, uma chuva de lágrimas, uma tempestade. É uma ventania da tristeza que atravessa o país, no momento em que Marisa Letícia, morta, ainda não conseguiu morrer de fato. O seu cérebro cansado foi antes, cheio de dor, de sangue, de mágoas. Calou-a. Não fosse o cansaço, talvez ainda ela pudesse dar um sorriso, dizer um palavrão, contar uma história, proteger a prole; e ameaçar inimigos com a promessa de cuidar do marido para que ele, forte por seu cuidado, os enfrente de peito aberto. O último sopro de vida de Marisa Letícia se foi. Os aparelhos ainda seguram os tique-taques do coração, por pouco tempo. Mas o tique-taque não é mais a vida de Marisa Letícia.


Em dezembro, Marisa, num jantar entre amigos, fez um brinde realista: não a dias melhores, mas à força que deveríamos ter para enfrentar dias ainda mais negros. “Não serão dias fáceis”. Minutos adiante, comentando a perseguição ao ex-presidente Lula, disse que os perseguidores não iriam conseguir matá-lo. Ela não deixaria. “Eu vou cuidar dele e ele vai morrer velhinho”.

Uma profissão de amor e fé no marido. Não serão dias fáceis os que nos esperam e Marisa Letícia não estará ao lado de seu companheiro. Mas terá deixado o seu recado: por piores que os dias sejam sem a sua presença, Lula deverá ter forças para lutar e vencer seus adversários.

Ela cuidará disso, de onde estiver. E, mais tarde, conseguirá, de lá, brindar a nós, que ficamos para trás, e a dias melhores. Tintim, dona Marisa. A dias mais serenos, mais felizes e mais justos, que um dia virão. E que teríamos gostado de compartilhar com você.

*É jornalista

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