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Novos prefeitos: O prefeito-síndico e a cidade protegida

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Boa parte dos novos alcaides eleitos nas grandes capitais tem se notabilizado por um conjunto mais ou menos padrão de medidas midiático-emergenciais, que poderíamos denominar de “limpeza das cidades”. Confira a seguir o artigo de Andrea Caldas na íntegra.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé e atividades ao ar livre
A imagem pode conter: atividades ao ar livre e área interna

 

Por Andrea Caldas*

Enquanto repetem que encontram dificuldades de caixa e pretendem reduzir o investimento social, ocupam-se com pinturas, blitz, limpeza e retirada de moradores de ruas das áreas centrais.

Greca, aqui em Curitiba, sumiu com os moradores de rua da área central e instaurou uma blitz nos bares para identificar, com pulseirinhas, quem bebeu.

Dória, em SP, se fantasiou de gari e de exterminador de grafites.

Emerge daí o conceito e sensação de cidade limpa e…protegida!

Prefeitos passam a agir, não mais como dirigentes do Estado – de vez que esta gestão, do ponto de vista da decisão e execução está cada vez mais nas mãos das empresas e grupos econômicos- mas, como síndicos de um grande condomínio.

O que se espera é que estes regulem a sociabilidade protegendo os “cidadãos” de ameaças “externas”. E estas ameaças estão materializadas nos diferentes, naquele que não identifico como do meu grupo.

No caso da retirada dos moradores de rua este efeito é imediato. No caso do apagamento do grafite, trata-se de vender a ideia de uma sociedade organizada, que regula onde e o que é considerado intervenção urbana artística.

È assim que Doria explica a medida: “Os grafites serão mantidos em oito espaços já definidos previamente pela Secretaria de Cultura. Os demais, que já estão envelhecidos ou infelizmente foram mutilados por pichadores, serão pintados”. (Uol notícias).

Estas medidas de gentrificação – gostemos ou não- no fundo, captam o sentimento de insegurança social que a globalização acentua e a recessão econômica agrava.

A sociedade global, já nos ensinava Ianni, é aquela que dilui os sentimentos de pertencimento nacional e nos joga na selva das relações assimétricas e desiguais, sem anteparos.

Por isso, a globalização e o recrudescimento de identidades sectárias e grupais não são contraditórias mas, opostos complementares.

Por isso, busco me proteger da selva do mundo, não mais no meu país que se dilui, nem na minha comunidade que deixou de existir mas, nos grupos que o Mercado segmenta e padroniza: no meu condomìnio, no meu zoneamento urbano, na minha escola, no meu plano de saúde, no meu clube, no meu grupo identitário…

Os novos prefeitos, portanto, nada mais são que uma extensão desta relação mercantil projetada para a regulação das cidades.

Por mais que denunciemos as políticas higienistas, é preciso admitir que elas cada vez mais adquirem funcionalidade no mundo que segue desigual e agressivo.

Este é precisamente o segredo do sucesso dos algoritmos que resolvem, de antemão, com quem eu devo ou não me relacionar, que gosto estético devo ter, que opiniões devo emitir.

Um grande síndico global é o sonho de consumo da maioria.

* É professora, diretora do Departamento de Educação da UFPR. Artigo publicado originalmente na página da rede social Facebook da autora.

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