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Arquivo do mês: janeiro 2017

Novos prefeitos: O prefeito-síndico e a cidade protegida

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Boa parte dos novos alcaides eleitos nas grandes capitais tem se notabilizado por um conjunto mais ou menos padrão de medidas midiático-emergenciais, que poderíamos denominar de “limpeza das cidades”. Confira a seguir o artigo de Andrea Caldas na íntegra.

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Por Andrea Caldas*

Enquanto repetem que encontram dificuldades de caixa e pretendem reduzir o investimento social, ocupam-se com pinturas, blitz, limpeza e retirada de moradores de ruas das áreas centrais.

Greca, aqui em Curitiba, sumiu com os moradores de rua da área central e instaurou uma blitz nos bares para identificar, com pulseirinhas, quem bebeu.

Dória, em SP, se fantasiou de gari e de exterminador de grafites.

Emerge daí o conceito e sensação de cidade limpa e…protegida!

Prefeitos passam a agir, não mais como dirigentes do Estado – de vez que esta gestão, do ponto de vista da decisão e execução está cada vez mais nas mãos das empresas e grupos econômicos- mas, como síndicos de um grande condomínio.

O que se espera é que estes regulem a sociabilidade protegendo os “cidadãos” de ameaças “externas”. E estas ameaças estão materializadas nos diferentes, naquele que não identifico como do meu grupo.

No caso da retirada dos moradores de rua este efeito é imediato. No caso do apagamento do grafite, trata-se de vender a ideia de uma sociedade organizada, que regula onde e o que é considerado intervenção urbana artística.

È assim que Doria explica a medida: “Os grafites serão mantidos em oito espaços já definidos previamente pela Secretaria de Cultura. Os demais, que já estão envelhecidos ou infelizmente foram mutilados por pichadores, serão pintados”. (Uol notícias).

Estas medidas de gentrificação – gostemos ou não- no fundo, captam o sentimento de insegurança social que a globalização acentua e a recessão econômica agrava.

A sociedade global, já nos ensinava Ianni, é aquela que dilui os sentimentos de pertencimento nacional e nos joga na selva das relações assimétricas e desiguais, sem anteparos.

Por isso, a globalização e o recrudescimento de identidades sectárias e grupais não são contraditórias mas, opostos complementares.

Por isso, busco me proteger da selva do mundo, não mais no meu país que se dilui, nem na minha comunidade que deixou de existir mas, nos grupos que o Mercado segmenta e padroniza: no meu condomìnio, no meu zoneamento urbano, na minha escola, no meu plano de saúde, no meu clube, no meu grupo identitário…

Os novos prefeitos, portanto, nada mais são que uma extensão desta relação mercantil projetada para a regulação das cidades.

Por mais que denunciemos as políticas higienistas, é preciso admitir que elas cada vez mais adquirem funcionalidade no mundo que segue desigual e agressivo.

Este é precisamente o segredo do sucesso dos algoritmos que resolvem, de antemão, com quem eu devo ou não me relacionar, que gosto estético devo ter, que opiniões devo emitir.

Um grande síndico global é o sonho de consumo da maioria.

* É professora, diretora do Departamento de Educação da UFPR. Artigo publicado originalmente na página da rede social Facebook da autora.

PT-RS defende posição de ‘nenhum voto aos golpistas’ na Câmara de Deputados

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A executiva do PT no Rio Grande do Sul divulgou nota em que repudia a posição defendida por alguns membros do partido de apoiar a candidatura à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para presidência da Câmara Federal. 

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O PT RS entende que na eleição da mesa diretora e à presidência da câmara dos deputados nosso partido deve dar um forte recado aos golpistas não apoiando nenhuma candidatura comprometida com este projeto de ataque à classe trabalhadora”, diz a nota.

“Devemos compor um bloco de esquerda, disputar e denunciar neste processo o ataque aos direitos em andamento. A participação deste bloco na mesa diretora é um direito, e este, se ameaçado, deve ser buscado na justiça a exemplo da câmara de Porto Alegre”, acrescenta a executiva, da qual é membro o deputado Paulo Pimenta.

Entre os petistas que defendem uma eventual composição com aliados de Michel Temer no Congresso, “para manter os espaços”, está o ex-ministro Gilberto Carvalho (leia aqui).

Leia na íntegra a nota do PT-RS:

“Nota sobre a eleição da mesa da câmara federal

No ano de 2016 a Câmara Federal promoveu um GOLPE na democracia brasileira, depuseram sem crime de responsabilidade uma presidenta eleita por 54 milhões de brasileiros e brasileiras, quebrando a constituição e o pacto republicano vigente até então em nosso país.

O objetivo do Golpe é de implantar no país o maior retrocesso de Direitos Sociais e trabalhista de nossa história e o congresso nacional tem sido a força que move o golpe e de forma truculenta tem passado toda a agenda golpista como a entrega do petróleo, a reforma do ensino médio, a PEC da morte entre outras.

O PT RS entende que na eleição da mesa diretora e à presidência da câmara dos deputados nosso partido deve dar um forte recado aos golpistas não apoiando nenhuma candidatura comprometida com este projeto de ataque à classe trabalhadora.

Devemos compor um bloco de esquerda, disputar e denunciar neste processo o ataque aos direitos em andamento. A participação deste bloco na mesa diretora é um direito, e este, se ameaçado, deve ser buscado na justiça a exemplo da câmara de Porto Alegre.

Neste sentido a bancada federal gaúcha está orientada a não votar em nenhum golpista.

Fora Temer

Diretas Já

Executiva estadual do PT

Milhões de pessoas marcharam em mais de 80 países contra Donald Trump

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A adesão à Marcha das Mulheres foi massiva em Washington, com mais de meio milhão de pessoas a invadir o centro da cidade. A iniciativa estendeu-se a mais de 670 cidades de todo o mundo.

Foto EPA/Mike Nelson

 

Via esquerda.net

Os protestos históricos encheram as ruas das cidades norte-americanas – de Los Angeles a Boston para Park City, Utah, onde celebridades do Sundance Film Festival se juntaram a uma marcha pelas ruas pejadas de neve. Segundo o Washington Post, em Chicago, a mobilização excedeu todas as expectativas, obrigando a organização a alterar o percurso previsto.

Washington contou com uma adesão massiva, com mais de meio milhão de pessoas a aderir à marcha. O sistema de transporte ficou totalmente sobrelotado. Vários artistas fizeram questão de se juntar aos protestos, entre os quais as cantoras Madonna, Alicia Keys e Cher, as atrizes Scarlett Johanson e America Ferrera e o realizador Michael Moore.

A cantora Madonna, que ostentou um chapéu preto com orelhas de gato, deixou uma mensagem de esperança: “O bem não ganhou nestas eleições [presidenciais, que deram a vitória a Donald Trump], mas ganhará no final”.

“Estão prontos para agitar o mundo? Bem-vindos à revolução do amor”, frisou.

Já Alicia Keys elogiou a força dos manifestantes e cantou a música ‘Girl is on Fire’. Cher afirmou que a subida de Donald Trump ao poder “deixou as pessoas mais assustadas do que alguma vez estiveram”.

“Têm sido tempos difíceis para ser tanto uma mulher, como imigrante, neste país. A nossa dignidade, os nossos direitos têm sido alvo de ataques”, referiu América Ferrera, descendente de primeira geração de uma família de imigrantes hondurenhos.

“Uma plataforma de ódio e de divisão chegou ao poder ontem [na sexta-feira]. Mas o presidente não é os EUA”, acrescentou a atriz.

Scarlett Johanson criticar a promessa do novo Presidente de acabar com os fundos públicos à organização sem fins lucrativos Planned Parenthood (Parentalidade Planeada): “Há consequências muito reais e devastadoras à limitação do que devia ser considerado como um acesso a cuidados básicos de saúde. Para milhões de americanos, a Planet Parenthood é, muitas vezes, a única clínica de confiança e acessível para a garantir educação social, o aborto em segurança e serviços salva vidas”.

O realizador Michael Moore optou por rasgar a capa do Washington Post sobre a tomada de posse de Trump: “Lê-se que o presidente Donald Trump jura acabar com a carnificina americana. Pois nós estamos aqui para jurar acabar com a carnificina de Trump”.

Paris, Berlim, Londres, Lisboa, Barcelona e Melbourne figuram entre as mais de 673 cidades em todo o mundo que replicaram os protestos.

PT lamenta morte de Teori Zavascki

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Em nota oficial, o partido diz que Teori foi homem público exemplar, que dedicou sua vida à busca da Justiça. Dilma, Lula e PT na Câmara também divulgaram nota.

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O Partido dos Trabalhadores divulgou, nesta quinta-feira (19), nota em que lamenta a morte do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki.

Ele faleceu na tarde desta quinta após um acidente de avião em Paraty (RJ). Teori se tornou ministro em 2012, por indicação da presidenta eleita Dilma Rousseff.

Leia a nota, na íntegra: 

 NOTA OFICIAL

O Partido dos Trabalhadores lamenta profundamente a morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki.

Teori Zavascki foi um homem público exemplar, que dedicou sua vida à busca da Justiça. Durante toda sua carreira militou no serviço público. Foi um excepcional professor de Direito e autor de livros fundamentais. Deixará para a posteridade o legado de um magistrado respeitado por sua competência técnica, equilíbrio e ética.

Em sua trajetória, assumiu cargos relevantes na magistratura nacional, sendo desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), antes de ser empossado no Supremo Tribunal Federal, em 2012, indicado pela presidenta Dilma Rousseff.

O PT estende sua solidariedade e pesar aos familiares, amigos e demais ministros do STF pela trágica perda de Teori Zavascki.

Rui Falcão

Presidente Nacional do Partido dos Trabalhadores

 

Fonte: Agência PT de notícia

PC do B decide apoiar o golpista Rodrigo Maia para a presidência da Câmara

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A bancada de deputados do PCdoB decidiu apoiar o golpista Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara de Deputados. A decisão, certamente, constrange a militância da legenda que saiu às ruas para denunciar o golpe. Maia foi um dos articuladores da derrubada de Dilma. Confira matéria do Estadão sobre a decisão.

Decisão foi tomada na terça-feira após uma reunião da bancada; partido foi um dos principais aliados…

PT: A grande e a pequena política nas eleições do Senado e da Câmara

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A discussão sobre qual a melhor atuação das bancadas do PT nas eleições das mesas diretoras do Senado e da Câmara deve ser feita com o máximo serenidade e respeito; afinal, essa não é uma questão de princípios. No entanto, ela é uma decisão política importante, dada a presente conjuntura de polarização política do país.

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Por Lindbergh Farias*

Por isso, se deve reconhecer que, mais que um problema de funcionamento interno, endógeno, a ser decidido no circuito fechado das bancadas parlamentares do legislativo federal, o tema bordeja elementos importantes da tática de atuação do PT, bem como da esquerda em geral, pelos próximos dois anos.

Em condições políticas de estabilidade democrática, o mais comum são situações em que os partidos concertam um acordo entre as partes e compõe uma mesa proporcional às bancadas.

Contudo, nos dias de hoje, o Brasil vive tempos de anormalidade institucional e democrática, desde que a maioria da Câmara admitiu, em abril, e o Senado consumou, em agosto do ano passado, um golpe parlamentar, votando o impeachment da presidenta Dilma, sem que ficasse provado crime de responsabilidade.

A partir daqueles fatos, a antiga oposição, mais uma parte fisiológica da base de apoio ao governo – hoje governo Temer -, cometeu um ato consciente de deslealdade ao pacto político da constituição de 1988. A lição a ser apreendida dos fatos recentes é que o principal motivo de ter havido relativa estabilidade institucional de 1988 até a pouco, foi que os partidos de oposição fizeram política a partir da premissa de respeito ao mandato de governos legitimamente eleitos. A situação mudou, desde que o PSDB não reconheceu o resultado das eleições presidenciais de 2014 e decidiu fazer uma oposição sem princípios e golpista ao governo Dilma.

Eis a conjuntura anormal em que ocorre o processo eleitoral de escolha das novas mesas do Senado e da Câmara, sendo, portanto, impossível fazer vistas grossas, desconhecendo tudo o que houve e ainda não foi socialmente cicatrizado. Por isso, embora Câmara e Senado sejam duas casas distintas, com as particularidades inerentes a cada uma, a questão política principal, neste momento, é idêntica.

Todos nós sabemos que o objetivo do golpe contra Dilma visava, de fundo, não apenas substituir a presidenta legitimamente eleita. O golpe foi político e de classe.

Fazendo jus à vocação autoritária universal do neoliberalismo, que começou com Pinochet no Chile, o que está em curso é uma ofensiva gigante de pseudo reformas, através de emendas à constituição, no sentido de retirar direitos conquistados pelos trabalhadores e entregar a soberania nacional sobre o território em terra, água e ar – neste caso, principalmente através da entrega de bandeja das riquezas do Pré-Sal às multinacionais do Petróleo.

O governo Temer chegou com muita sede ao pote, visando destruir em prazo acelerado a obra de nossos governos, buscando restaurar e avançar o neoliberalismo no Brasil com uma inaudita violência. Basta ver o aumento da repressão aos movimentos sociais, a exemplo da prisão nesta semana do companheiro Guilherme Boulos, terça-feira (17/01) em São Paulo.

Estamos no curso de batalhas decisivas. Neste interim, se põe a pergunta: como resistir a tantos ataques? Como é possível passar a atual defensiva para uma nova ofensiva em breve tempo? Como massificar o fora Temer e as diretas-já, articulando essas duas bandeiras com o lançamento da campanha de Lula? Qual o nosso papel como deputados e senadores de oposição em meio a isso tudo? Como podemos, parlamentares de compromisso com a esquerda, melhor combinar a luta no parlamento com a luta social?

Para melhor travar a guerra, antes de tudo, é fundamental melhor reconhecer o território. Sabe-se que, no momento, a correlação de forças internas partidárias na Câmara e no Senado nos é totalmente adversa. Para alterar a correlação de forças, só há uma forma de obtermos vitórias na adversidade. O caminho é difícil e acidentado, mas é o único caminho. Os atalhos são ilusórios. A receita é de fato priorizarmos as lutas sociais, unificarmos o campo de oposição, dialogarmos com humildade com a nossa base social,  que foi e tem ido às ruas com muita valentia, primeiro na defesa do governo Dilma contra o golpe e agora contra as reformas neoliberais.

A nossa atuação no parlamento tem que ter um foco de identidade com a voz das ruas. Temos que falar mais para fora – a sociedade – que para dentro. A nossa atuação tem que ser instrumento de agitação para levantar amplos setores da sociedade contra este governo e seu projeto nefasto. Nos termos de Gramsci, uma nova hegemonia contra o neoliberalismo e o governo Temer, uma nova ética política só será constituída se privilegiarmos mais atuação na sociedade civil que na sociedade política (o Estado).

Infelizmente, a história está repleta de exemplos de parlamentares originalmente de esquerda, ontem e hoje, que acabam superestimando o papel do parlamento, como se o mundo se resumisse a essas quatro paredes. Já é longa a saga – dois séculos – do que ficou conhecido como “cretinismo parlamentar”.

Marx, em um texto de balanço da revolução de 1848, dizia que o “… ‘cretinismo parlamentar’ consistia numa espécie de delírio que acometia as suas vítimas, as quais acreditavam que todo o mundo, o seu passado e o seu futuro se governavam por uma maioria de votos ditada por aquela assembleia (…) e tudo o que se passava fora daquelas quatro paredes muito pouco ou nada significavam ao lado dos debates importantes”.

Alguém, de boa intenção, pode perguntar assim: em que a participação numa chapa conjunta com Rodrigo Maia (DEM), Rogério Rosso (PSD), Jovair Arantes (PTB)  ou o senador Eunício Oliveira (PMDB) atrapalharia a nossa prioridade no tocante às mobilizações sociais?

Tenho escutado uma argumentação de justificação do acordo que não é verdadeira. Se diz – “Ah! A participação na mesa é importante porque podemos interferir na pauta”. Não é verdade. Todo mundo sabe que, no senado e na câmara, a pauta não é feita pela mesa. É feita pelo presidente que, às vezes, consulta o colégio de líderes. Tanto no senado como na câmara, o poder unipessoal do “presidente” é muito forte. Exatamente em torno da disputa desse poder unipessoal – que Gramsci chamava de cesarismo parlamentar -, as eleições pelo comando de ambas as casas são muito acirradas.

Para mim, em que pese a boa intenção, este conjunto de argumentos revela distanciamento da realidade. Pior, pode revelar que uma parcela de nosso partido se descolou perigosamente das forças sociais que estiveram a nosso lado nas duras refregas do presente; forças sociais, vale observar, não necessariamente filiadas ao PT, mas que persistem nos tendo como referência – a exemplo de coletivos de juventude, movimentos feministas, intelectuais que voltaram a atuar na luta contra o golpe, sem-terra, sem-teto, sindicalistas, etc. Uma militância que foi de uma valentia extraordinária no difícil ano de 2016 e que continua a postos para as lutas de 2017.

Não se enganem, esses movimentos e pessoas têm uma posição clara contra qualquer tipo de chapa em conjunto com os que perpetraram o golpe contra a democracia brasileira. Elas sentem que é necessário construir uma identidade, um campo oposicionista contra o golpe e seu programa de ataques aos trabalhadores.

A conjuntura é complexa e exige, antes de tudo, mais humildade da parte de nós, parlamentares e dirigentes do PT. Anos passados, o nosso partido era claramente majoritário na esquerda brasileira. Quando as instâncias do PT decidiam, por assim dizer, todos iam atrás. Hoje, não é mais assim.

Se quisermos manter e ampliar a nossa relação com esses movimentos sociais e setores intelectuais, bem como a nossa militância, temos que ter uma postura de mais diálogo. Falar mas também saber ouvir.

Neste mês de janeiro, tive a oportunidade de participar de plenárias abertas do PT em João Pessoa (PB) e Natal (RN). Em ambas igualmente apareceu certa expetativa e angústia com a possibilidade de o PT concertar chapas comuns, no senado e na câmara, com os setores que conduziram o golpe e todo o mundo sabe quais são. Em seguida, vem a pergunta da militância, também praticamente em uníssono: “o PT não aprendeu com tudo o que enfrentou?”.

Sem meias palavras, o nosso militante está querendo dizer o seguinte: concertar acordos nas eleições de ambas as mesas diretoras (câmara e senado) significa a continuação das ilusões com uma política de conciliação e contemporização. São setores que aparentemente ainda não acordaram para a dura crueza do golpe. Neste caso, a conciliação, que parece um atalho suave, na verdade é o melhor caminho para a irrelevância. Pretendem manter a conciliação com o PMDB e o centrão mesmo depois de passado o golpe e da perseguição criminosa contra o Lula. Impressionante.

Algum metido a esperto pode dizer que essas angústias da militância são expressão do senso comum. Chega-se a dizer que este é um “discurso fácil”. Engano de quem assim pensa. Neste caso, o sendo comum da militância, de tão óbvio e ululante, se transformou na expressão da mais pura e cristalina verdade.

Parem! Prestem atenção no que aconteceu no Rio de Janeiro. Há muito, dizíamos vários de nós, nas reuniões do PT/RJ, que estávamos perdendo nossa identidade, diluídos na aliança com o PMDB do Rio de Cabral et caterva. “Bobagem”, diziam! “É o preço da governabilidade”.

Pois bem, estamos pagamos o nosso preço, perdendo uma parte expressiva de nossa base social e ainda tendo que ver a traição do PMDB fluminense. Chega! Vamos escutar os movimentos, vamos escutar o PT.

Obter cargos de segundo time na mesa em uma negociação atrapalhada, caso aconteça, pode se configurar uma clássica vitória de Pirro. Gastamos uma energia imensa numa discussão que nos divide, e, ainda por cima, pode levar a um movimento de questionamento do próprio PT. O erro político sempre cobra o seu preço.

Devemos estar abertos a participar de articulações alternativas nas eleições para a presidência e mesa de ambos os parlamentos, com base em propostas de democratização das decisões da mesa e transparência administrativa do senado e da câmara. O deputado André Figueiredo (PDT) ensaia uma postulação na câmara. Pode-se movimentar uma ação semelhante no Senado. Mais vale um cargo na mesa ou um passo a mais na consolidação de uma frente de oposição?

Gramsci, que além de grande filósofo e dirigente político foi parlamentar em um tempo convulsionado de ascensão do fascismo, costumava diferenciar a “grande” da “pequena” política. Para ele, a grande política era aquela que se preocupava com os temas universais, principalmente a fundação do Estado e a alteração da relação de forças adversas, ao passo que a pequena política compreende as questões parciais e cotidianas, como ele mesmo dizia “a política de bastidores”. Façamos a grande política.

* É Senador PT-RJ 

Opinião – O novo prefeito e a solução para o transporte de Curitiba

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A crise no transporte coletivo de Curitiba tende a se agravar, porque a tarifa torna-se insuportável para o usuário

 

A crise no transporte coletivo de Curitiba vem se aprofundando desde a licitação de 2010. Foi um processo tumultuado, com denúncias de irregularidades que teriam beneficiado as empresas de transporte coletivo, formato dirigido da licitação e pouco debatido com a sociedade.

A Comissão de Análise dos Parâmetros da Tarifa, nomeada pelo prefeito Gustavo Fruet em março de 2013, concluiu seu trabalho em julho do mesmo ano com 111 recomendações para a redução da tarifa e melhoria na qualidade do transporte coletivo. As conclusões demonstraram as distorções de parâmetros que oneram demasiadamente a tarifa, levando à fuga de passageiros. Entre tais parâmetros cabe destacar a taxa de administração da Urbs, que representa 4% no valor de cada passagem (R$ 0,15 por bilhete). Acrescente-se ainda o elevado lucro líquido dos empresários, que é de 12%, o que totaliza R$ 120 milhões ao ano – ressalte-se que o pagamento do Imposto de Renda dos empresários está embutido na tarifa e representa outros 4% do custo (mais R$ 0,15 por bilhete).

A Urbs não se sustenta sem os 4% da taxa de administração cobrada na tarifa, e por isso tem interesse no aumento da passagem

Do lado da operação do transporte coletivo há parâmetros superdimensionados, como é o caso dos combustíveis, peças e acessórios, totalizando o porcentual de 20% (R$ 0,74 por passagem), que é bem menor em outras capitais como Porto Alegre e São Paulo. Considerando o elevado porcentual dos referidos parâmetros, constatado pelo Relatório de Auditoria, o TCE-PR reduziu, por liminar, a tarifa de R$ 2,70 para R$ 2,25 no fim de 2013. Essa liminar foi derrubada pelas empresas e pela Urbs no Tribunal de Justiça. Por mais contraditório que possa parecer, a Urbs foi contra a redução da tarifa – o que é explicável, já que a Urbs não se sustenta sem os 4% da taxa de administração cobrada na tarifa. Então, a Urbs é, sim, parte interessada na elevação do valor da tarifa. Somente com a transformação da Urbs de companhia mista em autarquia é que se resolverá tal contradição, por haver garantia de recurso do orçamento municipal.

A crise no transporte coletivo de Curitiba tende a se agravar, porque a tarifa torna-se insuportável para o usuário. Isso, associado ao elevado nível de desemprego provocado pela atual crise econômica, explica a queda da demanda. Em julho de 2013 foram 25,5 milhões de passagens no mês, número que caiu, em outubro de 2016, para 17,5 milhões de passagens/mês – uma brutal redução de 8 milhões de passagens no período. A choradeira dos empresários, de que estão tendo prejuízo em razão de a Urbs ter superestimado o número de passageiros, não tem sentido, já que no passado recente eles nunca fizeram tal reclamação. É inaceitável que em razão disso atrasem salários e 13.º dos empregados, provocando constantes greves para pressionar a Urbs a adiantar repasses de recursos financeiros às empresas.

A briga política entre o governador Beto Richa e o ex-prefeito Gustavo Fruet, com a retirada do subsídio do transporte coletivo da região metropolitana, levando ao fim da integração, influiu nessa queda da demanda, mas não é a razão determinante, já que a queda ocorreu em todo o sistema de transporte coletivo. O retorno do subsídio, já que o novo prefeito é aliado do governador, aliviará, mas não estancará a queda da demanda. Se o prefeito Rafael Greca de fato quiser resolver essa crise, terá de enfrentar a questão da transformação da Urbs em autarquia, não nomear diretores da Urbs envolvidos em denúncias de corrupção e resolver a suspeita licitação de 2010. Se não for resolvida essa licitação eivada de irregularidade e denúncias de fraude, não haverá como alterar os parâmetros que inflaram o preço da tarifa.

*É professor aposentado do Departamento de Economia da UFPR e doutor em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, foi membro da Comissão da Urbs de Estudos da Tarifa (2013) e é membro da Plenária Popular de Transporte. Artigo publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo -edição de 14/01/2017 – seção de artigos e opiniões.
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