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Esquerda – Freixo e PSOL ficaram presos a utopias de minorias nas eleições

Publicado em
Marlene Bergamo – 26.out.2016/Folhapress
Marcelo Freixo e a candidata a vice em sua chapa, Luciana Boiteux, em comício na Lapa, no Rio
Marcelo Freixo e a candidata a vice em sua chapa, Luciana Boiteux, em comício na Lapa, no Rio

Por Raphael Martins e Daniel Vargas* 

Em uma Lapa lotada de jovens militantes ainda emocionados com o resultado das urnas, Marcelo Freixo (PSOL) despede-se, por ora, de seus apoiadores:

“Renasce no Rio um projeto de esquerda responsável, capaz de disputar a cidade. Hoje é dia de celebração, porque a gente fez a campanha mais bonita deste país. Nossa vida não é movida pela pauta das urnas, nossos sonhos não cabem nas urnas. Nós vencemos”.

Embora seja compreensível e esperado que Freixo use seu discurso de derrota para manter a militância viva, a verdade é que essa eleição está longe de representar um avanço significativo para seu projeto político e para as forças progressistas do Rio e do Brasil.

Pior: suas palavras, apesar de retratarem a louvável força de sua base política apaixonada, ignoram, ao mesmo tempo em que evidenciam, os graves erros de estratégia, de avaliação do contexto nacional e do programa que balizou sua campanha.

Sua primeira aparição em uma eleição majoritária em 2012 foi tão impressionante quanto promissora. Com base apenas em sua forte atuação parlamentar e no trabalho de base com a juventude, mesmo com recursos absolutamente minguados, Freixo arrebanhou 28% dos votos e logrou incomodar um Eduardo Paes (PMDB) no auge de sua popularidade, concorrendo com o uso da máquina da prefeitura e com uma coligação de 20 partidos. Um feito marcante, que estabeleceu um capital político invejável para os anos seguintes.

Os contornos iniciais da eleição de 2016 mostravam a formação de uma tempestade perfeita em benefício de Freixo. Paes já não era tão popular e seu candidato tinha problemas estruturais graves. A fragmentação da direita era muito mais significativa do que a da esquerda. De um lado, Carlos Osório (PSDB) e Índio da Costa (PSD) tinham pouca força e batiam cabeça pelo mesmo espaço.

De outro, Marcelo Crivella (PRB) e Flávio Bolsonaro (PSC) amargavam rejeição alta. Além disso, Freixo reinava sobre Jandira Feghali (PC do B) e Alessandro Molon (Rede). O indicativo de que Crivella seria o adversário do segundo turno não poderia ser mais alvissareiro.

Fragilidade

O resultado do primeiro turno já indicava, contudo, sinais de fraqueza da candidatura. Em que pese a maior concorrência, Freixo teve 40% a menos de votos do que em 2012, passando para o segundo turno por uma margem ínfima e ficando muito atrás de Crivella. Ficou claro que as circunstâncias favoráveis foram o fator determinante no resultado positivo, muito mais do que os inegáveis méritos do candidato.

No segundo turno, a maré de sorte chegou a ponto de incluir um fato histórico na política nacional: o aparente apoio da grande mídia nacional a uma candidatura francamente de esquerda. Mesmo com tudo isso a favor, e enfrentando um adversário estereotipado, Freixo sofreu uma derrota acachapante: Crivella teve 50% de votos a mais (nas pesquisas, chegou a ter o dobro), e Freixo teve menos votos do que o número de abstenções.

É difícil encontrar um lado positivo nessa derrota. Comentaristas do campo progressista têm ressaltado o aumento na bancada de vereadores do partido (de quatro para seis). Embora não seja um resultado a se desprezar, grande parte dele deve ser imputada ao capital político que já havia sido construído em 2012. A verdade é que a dupla Freixo/PSOL não saiu do lugar em comparação à eleição anterior. Seu capital político não aumentou: apenas rendeu juros muito baixos.

A sensação é de que se desperdiçou uma oportunidade única. Com condições quase ideais, Freixo e o PSOL foram facilmente dominados por adversários muito fracos. Em um contexto que combina uma direita cada vez mais retrógrada e fortalecida a uma esquerda em estado de calamidade –ainda que muitos se recusem a enxergar o óbvio–, a vitória de Freixo representava, para muitos, uma das últimas esperanças.

Por que a campanha foi tão malsucedida? A resposta mais comum para a derrota dele é a conjuntura nacional desfavorável: o PSOL está pagando pelos erros do PT. Alternativamente, argumenta-se que a campanha de seu adversário desferiu golpes baixos. São dados talvez inegáveis, mas sem dúvida insuficientes para explicar mais do que uma parcela do problema.

A estratégia, a visão e o programa do PSOL expressavam falhas graves. A primeira foi uma espécie de escapismo da realidade. O partido parecia realmente acreditar que ganharia a eleição com muita utopia, muita estética de vanguarda, muita diversidade e inclusão. Não faltaram símbolos, como o vídeo de jovens fantasiados e com pouca roupa dançando e cantando em parada de ônibus.

Mas também não faltou a impressão de que a legenda desprezava o horizonte de valor da maioria do povo brasileiro. O choque estético do PSOL só encantou a classe média ilustrada, e pregar para convertidos é condenação certa às franjas do poder.

A segunda falha foi a resistência infértil. A sigla não quis alterar uma vírgula de seu discurso e de seu programa já tradicionais, não competitivos eleitoralmente no Brasil. O slogan “Vai ser desse jeito” não poderia ser mais sintomático dessa mentalidade.

Também desse jeito, surgiram as muitas dúvidas, nunca respondidas a contento. Direitos humanos de presos são mais importantes do que a violência generalizada? A liberdade dos professores suplanta o debate sobre a mediocridade da educação? Um conselho popular deve ser mais valioso do que a entrega de resultados efetivos?

Entenda-se a crítica pelo que ela é: ainda que Freixo e o PSOL não pensem nesses termos dicotômicos, mostraram-se incapazes de apresentar alternativa convincente, e foi isso o que boa parte do Rio de Janeiro entendeu–e rejeitou.

Utopia Importada

A terceira falha, subjacente às demais, talvez seja a mais grave: o colonialismo mental. Não é de hoje que nossa inteligência progressista é uma imitação, 20 anos atrasada, do que as academias americana e europeia pregaram. Em um país marcadamente pobre e imensamente desigual, religioso, com população semianalfabeta e uma economia rudimentar, em meio a um caos de segurança e saúde públicas, mesmo para padrões da América Latina, é preciso muita clareza sobre o que deve vir primeiro.

Uma ideia boa, fora do seu tempo e espaço, é uma ideia errada. Faltou ao PSOL, como falta à esquerda nacional, um projeto do presente e para todos os brasileiros, não a utopia importada das minorias. As lições das urnas são cintilantes: quem tratar o Rio com as lentes da Dinamarca só receberá o apoio da ínfima parcela da população carioca que tem como prioridade uma agenda cidadã nos moldes daquela do país nórdico.

Chegou a hora de o progressismo brasileiro se reencontrar com a maioria simples do nosso povo –com sua religiosidade, seus medos, sua batalha do dia a dia, suas expectativas. Talvez isso exija mais observação das partes da cidade e do Brasil –não somos um só. E trazer de volta para o centro da reflexão política o futuro das pessoas comuns, incluindo os evangélicos.

Para fortalecê-las, cumpre renovar as bases da economia (em vez de achar que dinheiro é problema da direita). Valorizar a solidariedade além do Estado e da família –algo que as igrejas já fazem muito bem. Assumir a formação educacional básica como prioridade absoluta e inegociável, sem jamais ignorar que todas essas frentes darão tanto mais frutos quanto mais forem desenvolvidas paralelamente a vitórias eleitorais e consequentes gestões bem avaliadas.

Nessas eleições do Rio, ganhar, infelizmente, parecia pouco para o PSOL. Mesmo tendo uma chance única de fazê-lo –e, o mais importante, lutando para salvar a capital fluminense das garras de um projeto obscurantista e reacionário como não se via em décadas–, o que mais importava era o congraçamento de iguais, o conforto de pertencer a uma tribo, o sonho que de tão grande não cabe na urna.

Inadvertidamente, o efeito da utopia foi deixar o destino da maioria do povo em segundo plano. Resultado: forçado a escolher entre a universidade e a igreja, o povo ficou com a segunda.

Claro que os criticados serão os primeiros a reagir, mas os fatos da história falam alto. Poder sem afeto é desumanizante –isso felizmente o PSOL e Freixo, um político que se importa genuinamente com o bem-estar da população e quadro importante para a recuperação da credibilidade da esquerda, já sabem muito bem.

Mas precisam aprender que afeto sem poder, e sem as maiorias, ainda que importante para nossas vidas, nada tem de revolucionário –e pode ser tão elitista quanto o projeto de seus adversários. A grandeza política nos pede ir além dos preconceitos e vaidades da velha inteligência.

Parece-nos que é chegado o momento de o progressismo brasileiro apostar na capacidade, na inteligência e nos sonhos da maioria simples dos brasileiros.

DANIEL VARGAS, 37, doutor em direito pela Universidade Harvard, professor da FGV Direito Rio, exerceu diversos cargos na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República nos governos Lula e Dilma.

RAPHAEL MARTINS, 29, mestre em desenvolvimento internacional por Harvard e em economia pela USP, foi assessor na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República nos governos Lula e Dilma.

*Artigo publicado originalmente no Caderno Ilustrissíma da Folha de São Paulo – edição de 20/11/2016

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