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O que explica o fim do ‘cinturão vermelho’ do PT na Grande São Paulo…

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A derrota do PT foi profunda nas eleições municipais de 2016, no primeiro e no segundo turno. Nesta segunda rodada, o partido perdeu todas eleições em que disputou. Porém, é preciso qualificar os números, verificar as causas e definir linhas renovadas de ação política e organizativa do PT (e da esquerda) para recuperar o terreno perdido para a direita e centro-direita

 

Um resultado chama atenção. A pulverização do  outrora chamado ‘cinturão vermelho’ do PT, que se estendia da zona leste paulistana, passando por toda região do ABC e desaguava até Guarulhos, já na região da rodovia Dutra. Uma massa do eleitorado de perfil operário e popular, que habita os bairros e as periferias desses municípios, um território densamente povoado, que sempre teve uma forte tradição de lutas populares e sociais, um estuário que irrigava a legenda do Partido dos Trabalhadores(PT).

O fenômeno do afastamento desse tradicional eleitorado do partido foi notado já nas eleições presidenciais de 2014, quando Dilma perdeu em várias cidades da região para o candidato tucano Aécio Neves. Daí em diante, com a ofensiva política da direita, o aprofundamento da crise econômica e o descolamento do PT das suas bases sociais, a situação só foi  piorando, até chegar ao ponto de ruptura, com o desencanto e o voto na direita e centro-direita.

Alguns tentam ainda uma explicação colocando uma pseudo culpa no eleitorado da região pela guinada à direita. Um erro crasso. É verdade que a crise econômica atiçou a desesperança e um sentimento de raiva ao então governo petista de Dilma, para muitos a origem maior da crise, na medida em que adotou uma política econômica regressiva de ajuste fiscal, que penalizou os trabalhadores. O desemprego na região do ABC, atualmente, ultrapassou 15% em algumas cidades. Em São Bernardo do Campo, por exemplo,  avançou para mais de 18%.

Porém, o pano de fundo da derrocada petista na região, além da crise econômica que vem afetando pesadamente a vida do trabalhador,  está situado no abandono pelo partido de uma luta séria e consequente em defesa de reformas mais profundas. É inegável que a vida melhorou na região para o povo pobre e trabalhador com os quase 14 anos de governos Lula e Dilma.

Mas também é verdadeiro que a crise econômica  e social varreu as conquistas e vantagens materiais obtidas no período do ‘desenvolvimentismo lulista’: a compra da casa, o carro novo, a matrícula do filho via FIES na faculdade particular, o acesso ao avião, o crediário largo(em suaves e longas prestações) para a compra de bens e etc. Foram conquistas subitamente reduzidas e até eliminadas com o crescimento do desemprego, que atingiu, primeiramente, o trabalhador menos qualificado, e depois, o mais qualificado. Aí reside parte do desencanto, importante fator que transbordou para as urnas, punindo com vigor o PT.

Ao lado disso, temos o fator das reformas estruturais não realizadas durante os governos do PT. Toda essa população da região do antigo ‘cinturão vermelho’ tem uma longa e obstinada tradição de luta por moradia, saúde, transporte, segurança, enfrentando interesses econômicos poderosos e consolidados. Apesar de programas como o “Minha Casa Minha Vida”, na região é grande a luta pelo acesso ao direito de moradia, há um grande número de favelas e bairros precários. E em cidades como Santo André, São Bernardo e São Caetano incidiu uma forte valorização dos terrenos, surgindo uma brutal “gentrificação”, que expulsou os pobres para ainda mais longe do centro. Ou seja, a demanda pela Reforma Urbana não foi atendida. Isso para não falar da saúde pública, dos meios de transportes e mobilidade urbana, do sistema de segurança pública, que quase sempre significa uma atuação policial contra a população.

Ou seja, não basta o acesso ao consumo, é preciso direitos consolidados, o estado social, garantido por um processo de lutas de caráter transformador. O PT não operou como sujeito coletivo na direção dessa transformação do aparelho do Estado, se adaptou e reduziu o alcance de suas metas programáticas.

Portanto, a combinação de uma crise econômica, com o ônus dela descarregado nas costas do povo trabalhador, e uma reordenação neoliberal, com  redução da oferta dos serviços prestados pelo estado e a destruição da tênue rede proteção social construída a partir da Constituição de 1988, formou as condições para uma transição do eleitorado para à direita e centro-direita no ‘cinturão vermelho’ e em outros antigos redutos de apoios sólidos com que contava o PT em todo país.

Para o PT fica o desafio da reconstrução politica e orgânica, reatando os compromissos e os laços com a base social que justifica/ou justificou o seu nascimento e existência. Sem esse esforço, perde o sentido e eficácia como ferramenta de luta transformadora da sociedade brasileira, ainda extremamente desigual e excludente.

O PT e a esquerda reunirão energias para realizar mais essa travessia pelo ‘longo inverno’ da reação conservadora?

 

*Infográfico do Portal G1.

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