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Opinião – Sobre as eleições em SP e RJ: A história quando se repete é farsa…2016 não é 1989!

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Artigo do experiente jornalista político Marcelo Auler aborda o cenário eleitoral das duas principais cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, disputas onde a esquerda corre o risco de ficar fora do segundo turno, um desastre político com consequências imediatas e futuras para a reorganização e requalificação de um projeto da esquerda no Brasil. Neste sentido, o articulista recomenda o voto útil do campo progressista em Fernando Haddad(PT) em São Paulo e por Marcelo Freixo(PSOL) no Rio. Auler lembra o valor das trajetórias de Luíza Erundina(PSOL-SP), Alessandro Molon(Rede-RJ) e Jandira (PCdoB-RJ). E apela para a consciência e responsabilidade dos eleitores do campo popular e de esquerda.(M.A). Confira

 

A 24 horas das eleições municipais, olhando o quadro nas duas principais cidades do país – Rio e São Paulo – recordei o que vivenciamos no Rio de Janeiro, em 1989, na primeira eleição direta para a presidência da República depois da ditadura militar.

Naquela disputa, principalmente no Rio de Janeiro, onde Leonel Brizola tinha força, a esquerda se deu ao direito de se dividir no primeiro turno. Era algo até normal, depois do longo período de ressaca, sem eleições diretas, imposto pelo golpe civil-militar de 1964.

Nas vésperas do primeiro turno, quem entrasse no Restaurante Lamas, no bairro do Flamengo, encontraria seus clientes divididos fisicamente em fileiras de mesas. De um lado, os brizolistas. Do outro, os lulistas. Praticamente todos se conheciam, afinal, lutaram juntos contra a ditadura, cada um em sua trincheira. Eram torcidas barulhentas. Cada qual gritando suas palavras de ordem e tentando superar a dos “adversários”. Foi uma bonita festa. Assim como foi acirrada a disputa entre os dois, voto a voto, até se delinear que Lula representaria a esquerda no segundo turno, contra o novato Fernando Collor de Mello, do então PRN.

O segundo turno foi uma luta desigual, tal como ocorreu agora com o golpe contra Dilma Rousseff, que feriu o Estado Democrático de Direito. A grande mídia apoiou e sustentou o chamado “caçador de marajás”. Era, segundo esta mídia tradicional e conservadora, o “salvador da pátria”, após o final desastroso do governo de José Sarney (PMDB). Recorde-se às gerações mais novas que estávamos distantes dos tempos de internet, face book e redes sociais. O forte na campanha era a televisão, tanto assim que a TV Globo, na véspera do pleito, apresentou uma reportagem toda manipulada sobre o debate dos dois candidatos, o que prejudicou ainda mais a Lula.

Ao contrário de 1989, na eleição de domingo, 02/10, há o risco de candidatos à esquerda ficarem fora do segundo turno. Entregaremos a prefeitura das duas principais cidades a aliados do golpe já no primeiro turno?

Mas, ao contrário do que ocorre hoje, no primeiro turno daquele pleito, não só por conta do exagerado número de candidatos – 22 – como pelo sentimento de oposição, após anos de ditadura militar, as chances de a esquerda ficar fora do segundo turno eram pequenas. Afinal, até os conservadores de hoje, como Roberto Freire (PPS), o próprio Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – que só não apoiou Collor de Mello por conta das posições firmes de Mario Covas – apresentavam-se como tal, isto é de esquerda. Eram mínimos os riscos das chamadas “forças progressistas” não serem representadas no segundo turno.

Esta é a principal diferença das eleições deste domingo, dia 2/10, quando estarão em jogo prefeituras de cidades importantes. Vivemos um período totalmente distinto em que setores da esquerda – o PT, principalmente – foram demonizados pela mídia, com ou sem razão. Além disso, partidos que eram ideologicamente “progressistas”, como o PDT de Brizola, hoje se juntaram a políticos que não se preocupam com qualquer posição ideológica.

Quem poderia imaginar Cidinha Campos (PDT), a deputada que nunca fugiu de uma briga, apresentar-se como candidata a vice de Pedro Paulo o candidato de Eduardo Paes, Jorge Picciani, Pezão e todos os golpistas do PMDB que desrespeitaram os 54 milhões de votos dados a Dilma Rousseff? Alguém é capaz de definir a posição ideológica do candidato? Não duvido que, apesar de cassado com a ajuda de seu antigo aliado, Eduardo Cunha continue o apoiando. Menos ainda que, em vida, Brizola e Darcy Ribeiro não permitiriam aliança com políticos que apoiaram o golpe do impeachment e com isso feriram a democracia que eles ajudaram a reconquistar, inclusive com sacrifícios pessoais.

Há de se ter em mente que a esquerda tem hoje um inimigo comum: os golpistas que derrubaram uma presidente eleita democraticamente, acusando-a de um crime que não cometeu. E o que vemos, é a esquerda, mais uma vez, se digladiar, sem se incomodar com o fato de que isso só beneficiará aqueles interessados no poder. Ajudam a políticos que antes de se preocuparem com o bem público visam seus interesses pessoais, quando não interesses escusos.

Deixar um João Dória (PSDB) e um Celso Russomanno (PRB) disputarem sozinhos a prefeitura de São Paulo no segundo turno é algo inimaginável. O mesmo se pode dizer com relação ao Rio onde, se a esquerda não se unir – ainda que por meio do famigerado voto útil, que jamais imaginei defender – teremos Pedro Paulo (PMDB) enfrentando Marcelo Crivella (também do PRB) no segundo turno.

Perderemos a chance de levar – aqui no Rio, até mais do que em São Paulo – um representante das forças progressistas a uma disputa com possibilidades reais de conquistar a prefeitura, dada a rejeição que Crivella sempre teve por estar umbilicalmente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.

Não podemos esquecer que estes quatro – Dória, mesmo sem ser parlamentar, Russomanno, Crivella e Pedro Paulo –  estão do lado de Michel Temer e dos golpistas que derrubaram Dilma Rousseff. No Rio, então, a situação é mais gritante, pois esses dois candidatos se beneficiaram dela e dos governos do PT.

Paes, Cabral, Pedro Paulo e Pezão se beneficiaram dos governos Lula e Dilma; Crivella, apoiou Lula e e foi ministro de Dilma. Mas todos estão hoje com o governo golpista de Michel Temer.

Crivella esteve ligado ao governo Lula, cujo vice-presidente, José de Alencar, o ajudou a fundar o PRB. Depois, foi ministro de Dilma. Pedro Paulo participou do governo de Eduardo Paes, a quem serve de “escudeiro” (e vice-versa). Um governo cujos resultados positivos que apresenta estão intrinsecamente ligados ao apoio – não apenas financeiro – dispensado pelos petistas que estavam no Palácio do Planalto.

Curioso é que eleitores do Rio que foram às ruas gritar contra a corrupção, hoje apoiam o PMDB esquecendo-se do envolvimento de Sérgio Cabral e sua trupe nas bandalheiras que estão sendo denunciadas. Onde a coerência: e

Não resta dúvida que políticos como Alessandro Molon (Rede), Jandira Feghalli (PCdoB) e Luíza Erundina (PSOL) têm o direito de tentar com suas propostas políticas, conquistar os eleitores. Aliás, em recente encontro casual, em um lançamento de livro do Frei Betto, em São Paulo, declarei meu apoio à candidatura de Erundina, mulher de fibra, que impõe respeito pela vida coerente que sempre teve e pelas ideias que defende. É uma excelente candidata, mas não conseguiu transpor o conservadorismo dos eleitores paulistanos.

Hoje, fosse eu eleitor em São Paulo, votaria em Fernando Haddad, com todas as críticas que tenho ao PT, porém reconhecendo a gestão dele à frente da prefeitura.

O mesmo posso dizer de Molon, outro que merece respeito por sua coerência política, retidão de caráter. Mesmo quando esteve no PT não aceitou as coligações e alianças com o lado espúrio da política fluminense, nitidamente calcados em interesses mais pessoais do que coletivos. O que marcou os petistas cariocas com a famosa alcunha de “partido da boquinha”. Mas, pelo que o próprio Molon constata na pele, sua opção partidária ao deixar o PT não encontrou respaldo nos eleitores do Rio.

Com relação a Jandira, a apoiei para senadora e me posicionei contra a perseguição que sofreu – principalmente das igrejas – pelo apoio ao aborto. Mesmo admirando sua carreira política, discordo das posições de seu partido – PCdoB – assim como discordei do PT do Rio de Janeiro, em especial nas alianças que fizeram ao longo dos anos. Alianças muitas vezes ditadas por interesses outros, como ocorreu com o apoio a Garotinho e a Sérgio Cabral/Jorge Picciani. O ideal seria que estes três se unissem ainda no primeiro turno, o que não foram capazes de concretizar.

Não há como sonhar em desistência de candidaturas. São os eleitores que devem decidir o que fazer na urna eleitoral para tentar garantir representantes de esquerda no 2º turno.

Decisão do eleitor

Não vou sonhar com a retirada de candidaturas. Isso não costuma ocorrer e o resultado prático é desconhecido. Mas acho que o eleitor que se preocupa com questões sociais nesse país – independentemente da legenda partidária de sua preferência – precisa decidir o voto de domingo, ainda que ele seja para governo municipal, de olho na situação nacional. É dele que se espera ajudar a derrotar determinados clãs políticos, como o PMDB no Rio, de passado nebuloso, e aventureiros como Dória e Russomanno na capital paulista.

Pensando assim é que defendo publicamente o voto em Marcelo Freixo (PSOL – 50) para a prefeitura carioca e a continuidade de Fernando Haddad (PT – 13), em São Paulo. São candidatos dos quais não se pode falar mal – Haddad fez uma administração digna, voltada para os mais necessitados – e que podem representar uma caminhada à esquerda rumo a novas alianças e novos compromissos daqueles que se preocupam com o país após o golpe do impeachment. Freixo representa, com sua legenda política, a esperança de um governo voltado para atender às necessidades das camadas mais desfavorecidas da sociedade, o que não ocorreu nos governos peemedebistas. Ou seja, ambos merecem o apoio daqueles que querem mudanças profundas no modo de se governar uma cidade, um estado, um país.

*É jornalista. Artigo publicado em seu site em 01/10/2016

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