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Opinião – Jogos Olímpicos ou Jogos da Exclusão

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Na véspera da abertura da Olimpíada, Comitê Popular divulga mapa dos despejos da população (77 mil pessoas), dos crimes ambientais e da militarização da cidade que marcam o projeto olímpico do Rio de Janeiro.

Por Luís Leiria* –  Via Esquerda.Net

Em todo o mundo, a Olimpíada do Rio de Janeiro, que abre esta sexta-feira no estádio do Maracanã, será como habitualmente acompanhada como uma festa do desporto e da fraternidade entre os povos. Mas na sua própria cidade-sede, o ideal olímpico está a ser ofuscado por uma onda de contestação à organização, que levou o Comité Popular da Copa e das Olimpíadas no Rio de Janeiro a apelidar o evento deste ano de “Jogos da Exclusão”.

Mapa da exclusão

Às vésperas da cerimônia de abertura, o Comité Popular divulgou um  mapa da exclusão, detalhando  as comunidades que foram removidas à força devido às obras, as favelas ocupadas militarmente, os crimes ambientais cometidos e as irregularidades de todo o tipo cometidas nas obras. O mapa vem juntar-se  a um dossier, divulgado no final do ano passado, que mostrava como o Projeto Olímpico do Rio de Janeiro é marcado pela exclusão e pelas desigualdades sociais.

O Comitê Popular mostra que desde o ano 2009, quando a cidade venceu a disputa para sediar os Jogos, mais de 77 mil pessoas perderam as suas casas no Rio de Janeiro. O prefeito Eduardo Paes removeu milhares de famílias para a construção das vias expressas ou alegando riscos de desabamento, sem nunca discutir com os afetados alternativas aos despejos, como seriam alterações de trajetos e obras de contenção.

Mas há casos que nem esse pretexto tiveram. O mais famoso é o da favela Metrô Mangueira, que foi removida por estar a menos de 1km do Maracanã. Oficialmente, nunca foi dada uma justificativa para a sua demolição. O mesmo aconteceu com a Vila Autódromo, que fica ao lado do Parque Olímpico e foi reduzida de cerca de 600 casas a 20, também por estar ao lado de uma área de intensa valorização imobiliária.

Somando todos os casos, ocorreu, com o pretexto da Olimpíada, o maior processo de remoções da história do Rio de Janeiro, afirma o Comité. Com a desculpa do megaevento, à semelhança do que já ocorrera em todo o país com o Mundial de Futebol do Brasil, expulsou-se as camadas mais pobres da população de áreas de interesse empresarial.

Promessas abandonadas

“Muitas pessoas tiveram de mudar-se quase para fora da cidade, a 70 quilômetros do centro, e a gente vê que muitas dessas remoções não eram necessárias, atendiam apenas aos interesses privados, não o público”, denuncia Renato Cosentino, do Comitê Popular da Copa e da Olimpíada do Rio de Janeiro, ouvido pela Agência Brasil.

Cosentino denuncia que as promessas de melhoria para a cidade, como o programa Morar Carioca, que urbanizaria todas as favelas até 2020, a construção da linha 3 do metro, que iria para Niterói e São Gonçalo, foram abandonadas e trocadas por prioridades olímpicas. A anunciada despoluição da Baía de Guanabara, a promessa era de que 80% do esgoto que nela é despejado estaria a ser tratado até 2016, mas não se chegou nem a 50% do total.

“A construção do consenso olímpico ajudou a legitimar uma série de obras que não eram prioridades. Construir um Museu do Amanhã não é prioridade numa cidade onde as pessoas não tem água nem saneamento básico nas suas casas. A Olimpíada permitiu que muitas dessas obras fossem inclusive desengavetadas nesse processo. É uma pena, porque a cidade perdeu muito, inclusive, a oportunidade de se reinventar. Vivemos em uma cidade inclusive mais desigual do que a anterior aos grandes eventos”.

Apagar a tocha

Por tudo isto, não há entusiasmo da população com os Jogos. “Não tem clima de euforia com esse evento na cidade, pelo contrário, as pessoas estão querendo apagar a tocha, parece que o povo entendeu o que está acontecendo, com esse movimento espontâneo da população ‘desorganizada’ de querer apagar a tocha, isso não foi puxado por nenhum movimento social”, observa Cosentino.

O mapa dos Jogos da Exclusão mostra também como as grandes intervenções urbanas, como o Porto Maravilha, que visa a revitalização urbana da Região Portuária do Rio de Janeiro, é a maior parceria público-privada do país, onde o “público” entrou com o dinheiro e o “privado” vai ficar com o lucro. O financiamento veio do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, um fundo para valer ao trabalhador desempregado – e que é dinheiro dos trabalhadores – e o projeto já está sob investigação por corrupção nos contratos.

Quanto às novas instalações desportivas, uma parte será desmontada quando os Jogos terminarem e outra será privatizada, num processo de venda a baixo preço de obras que custaram fortunas aos cofres públicos.

Para finalizar, as novas acessibilidades, que deveriam melhorar muito a vida dos cariocas, estão atrasadas e levantam dúvidas. Uma das novas linhas do metro previstas foi abandonada e a outra continua atrasada, e viu o seu traçado original reduzido. Mesmo assim, o seu custo é 21 vezes mais que o inicialmente previsto em contrato.

Os corredores de BRT (vias expressas para autocarros) já enfrentam relatos de atraso, dificuldade de embarque, desconforto e superlotação nos primeiros dias de operação. Uma das vias, a TransOlímpica, foi interditada menos de uma semana após inauguração, porque um viaduto ameaçava cair.

Já o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) tem cobertura pequena. Mas os grandes transportes de massa, como os comboios que servem os subúrbios, continuam sem investimento e sucateados.

Fora Temer

Poucas horas antes da cerimónia de abertura, uma manifestação com cerca de 15 mil pessoas, organizada pelas Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, a central CSP-Conlutas, e partidos como PT, PCdoB, PSOL, PSTU, MAIS e PCB pediu a saída do presidente interino Michel Temer e denunciou as contradições da Olimpíada. A tocha olímpica, mais uma vez, teve de mudar um percurso que já deve ser o mais atribulado da história dos Jogos Olímpicos.

*É jornalista do Esquerda.Net

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