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Vila Autódromo, a comunidade que venceu os Jogos Olímpicos

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Depois de mais de dois anos de demolições, 20 famílias conseguem permanecer na Vila Autódromo

Vila Autódromo, remoção violenta da população local para as obras das Olimpíadas

Por Patricia Martinez Sastre* – El País

“Por que eu preciso sair da minha casa para um evento que vai durar 18 dias se eu vivo aqui há 20 anos e a comunidade existe há 40? É muito injusto, e sabemos que o motivo real não é a Olimpíada”, afirma a jovem Nathalia Silva manifestando o absurdo dos que a obrigam a abandonar o lugar em que cresceu sob o pretexto do grande evento esportivo. Mas sair da Vila Autódromo nunca esteve em seus planos e hoje, após vários anos de incerteza, pode afirmar orgulhosa que irá ficar.

Um total de 20 famílias de uma comunidade que somente dois anos atrás possuía quase 600 (com 3.000 pessoas)conseguiram permanecer na favela, vizinha ao Parque Olímpico e objeto de uma forte especulação imobiliária por estar localizada no bairro nobre da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro e sede principal dos Jogos Olímpicos de 2016. A prefeitura está construindo 20 casas e estava previsto que as chaves fossem entregues nesta terça-feira para que as famílias deixem de viver em moradias provisórias.

“As pessoas às vezes pensam no pobre como lixo para ser removido. Não somos lixo, somos pessoas com direitos que precisam ser respeitados. Eu lutei para demonstrar que temos voz e que existe uma solução, só é preciso que o povo lute com dignidade”, explica Maria da Penha, mãe de Nathalia e símbolo de resistência da sempre ameaçada Vila Autódromo. Fiel aos seus pensamentos, nunca aceitou indenização e se mudar ao complexo urbanístico Parque Carioca – projeto de recolocação dentro do programa estatal Minha Casa Minha Vida – até mesmo quando sua casa foi demolida e precisou buscar abrigo na igreja local.

“A igreja é a casa de todos. É um lugar que deve servir ao povo e que não está aí somente para adoração”, argumenta uma convicta Penha, cuja fé lhe deu parte da força necessária para enfrentar essa luta. Migrante da Paraíba, viveu durante vários anos no imenso complexo de favelas da Rocinha até que decidiu investir tudo o que tinha em busca de uma melhor qualidade de vida na Vila Autódromo, onde resiste há 24 anos.

Mas a tranquilidade dessa pequena comunidade – sem tráfico de drogas e milícia – seria interrompida com as primeiras demolições em março de 2014. Uma vez que os primeiros moradores começaram a aceitar os termos de saída, os que resistiram se viram obrigados a conviver entre escombros, tremores e todo o tipo de estratégias para retirá-los do local. “Primeiro cortaram a luz e depois a água. Eu tinha dois filhos pequenos, com tanto mosquito e sem luz não podíamos ficar”, explica Wagnei Carvalho, que viveu de aluguel durante quatro anos na Vila Autódromo. Depois de sair de lá se mudou para o Conjunto Habitacional César Maia, em guerra com a Cidade de Deus, de modo que precisou se mudar de novo.

“Sua principal estratégia foi dividir para ocupar. Dividiram até famílias: o esposo queria sair, a esposa não; um filho sim, o outro irmão não… a desarmonia foi total”, lembra Nathalia. As negociações passaram a ser individuais, as chamadas nas portas das casas contínuas e até violência física foi utilizada. Uma data não sai de sua cabeça: 3 de junho de 2015. Nesse dia, junto com outros moradores, sua mãe foi agredida pela Tropa de Choque ao tentar impedir a retirada por ordem judicial de uma família da comunidade. O despejo foi evitado graças à criação de um cordão humano e a transmissão ao vivo por parte de alguns veículos da imprensa.

Mas essas 20 famílias puderam observar como suas novas casas foram surgindo entre tanta destruição e finalmente podem afirmar sem medo que ficam; que hoje a Vila Autódromo existe e resiste graças a sua pequena grande rebeldia. “A luta é de todos os que já passaram por essa comunidade e de todos os que nos apoiaram, é uma vitória coletiva de toda a sociedade”, reconhece Penha. Por sua parte, sua filha Nathalia se mantém alerta: “Vamos continuar lutando para que também cumpram com a construção de um centro cultural e de uma associação de moradores, como foi acertado nas cláusulas do contrato”.

Ameaça contínua de remoção

“Em uma tarde de domingo na Vila Autódromo é frequente ver crianças brincando, senhoras sentadas nas calçadas conversando, galinhas correndo e ouvir música de algum barulhento sertanejo. São comuns as casas com comércio, os bares, os mercadinhos e os salões de beleza”, descreve em um livro-reportagem sobre a favela a estudante de Ciências Sociais Paula Paiva, em março de 2013. Atualmente este solo está cheio de buracos, os operários caminham de um lado para o outro escondidos sob coloridos capacetes e só é possível ouvir o barulho de máquinas escavadoras.

O tempo fez estragos nessa favela que desde seu nascimento convive com o fantasma da remoção. Fundada por pescadores na década de setenta, a Prefeitura do Rio tentou primeiro desalojá-la acusando-a de “dano ao meio natural, urbano, estético e visual”. Aos olhos de Nathalia a hipocrisia é enorme: “Todos os edifícios que hoje temos ao nosso redor danificam, sem dúvida nenhuma, infinitas vezes mais o meio ambiente do que uma comunidade de 600 famílias”. A poucos metros de distância está a Vila Olímpica – moradia olímpica onde se hospedarão os aproximadamente 15.000 atletas – composta por 31 edifícios de 17 andares cada um.

Anos mais tarde, após as fortes chuvas de 1996, o poder público alegou que a região se encontrava em uma área de “risco”, mas mais uma vez a acusação foi refutada. A Vila Autódromo tem o direito de existir graças à concessão estatal de um Direito Real de Uso válida por 99 anos prorrogáveis. Isso não impediu, entretanto, que durante os preparativos dos Jogos Pan-americanos de 2007 várias casas sofressem ameaças de remoção, da mesma forma que nos anos anteriores à Copa do Mundo de 2014.

Nessa última ocasião o atual prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, argumentou que a favela deveria ser desocupada por exigência do Comitê Olímpico Internacional (COI) pois invadia o perímetro de segurança da Olimpíada e depois, devido à construção de diversas instalações. A Defensoria do Povo mandou então uma notificação ao presidente do COI, Jaques Rogge, explicando que a Vila Autódromo era uma comunidade pacífica. “De noite eu me sentava para ver televisão, dormia e a casa ficava toda aberta. Nunca fui roubada, ninguém arrumava confusão com ninguém…”, acrescenta a ainda moradora Dalva Chrispino de Oliveira.

Uma disputa incerta que longe de ser uma exceção afeta muitas outras comunidades irregulares. Segundo o último dossiê do Comitê Popular do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, pelo menos 4.120 famílias já foram desalojadas de suas casas e 2.486 convivem com esse perigo por projetos relacionados direta ou indiretamente com os Jogos. Comunidades históricas como a Favela do Sambódromo, Vila das Torres, Largo do Campinho, Restinga, entre outras, foram completamente removidas. Outras como a Vila União de Curicica e a pequena Metrô-Mangueira – essa última ao lado do gigantesco Estádio do Maracanã – pouco a pouco estão desaparecendo.

Jogos Olímpicos para quem?

O zika vírus, a forte crise econômica que assola o país e o impeachment da presidenta Dilma Rousseff não foram foram capazes de alterar a data desse encontro mundial com o esporte. Após um investimento que supera os 38 bilhões de reais, as zonas oeste e centro do Rio, principalmente, são hoje um canteiro de obras; com algumas funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana. Tudo deve estar pronto em 5 de agosto, início de uma festa esportiva que nem todos poderão aproveitar.

“Eu sou vizinha do Parque Olímpico, mas por acaso terei dinheiro para comprar uma entrada e participar da Olimpíada? Não, a Olimpíada não é para mim, mas para uma minoria”, reconhece Maria da Penha que trabalhou como faxineira por vários anos. “Além disso, no meu caso foi pior porque em seu nome destruíram minha história, minha comunidade e a casa de meus sonhos”. O valor atual do salário mínimo no Brasil é de 880 reais, enquanto uma entrada olímpica com preço popular custa por volta de 70 reais.

“Não sou contra os Jogos Olímpicos, mas contra a utilização de um megaevento para se fazer higienização social. Para excluir e piorar a vida das pessoas que já vivem em uma precariedade imensa o que, por outro lado, já é prática comum por onde quer que a Olimpíada passe”, diz Nathalia. Bairros como a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes foram os mais prejudicados por sua alta revalorização imobiliária e o desejo de construir apartamentos de classe média. “É preciso acabar com a podridão por trás dos Jogos”, acrescenta de forma contundente.

Além disso, são muitos os moradores da favela que também se queixam do escasso legado social que esse tipo de evento dá como retorno quando acaba. Por exemplo, no Parque Olímpico estão o Centro Aquático Maria Lenk e o ginásio Rio Arena, ambos herança dos Jogos Pan-americanos de 2007. “Mas não existe uma só criança de nossa comunidade que vá nadar lá”, se lamenta Dalva Chrispino. “Do Pan-americano até o dia de hoje quantos atletas poderiam ter sido formados para competir nas Olimpíadas?”, se pergunta sagaz seu filho Dilso de Oliveira.

Geralmente, essas instalações são reservadas para eventos pontuais como espetáculos e competições. “Já que são realizados shows, por que não também outros tipos de atividades culturais sem custos astronômicos? O povo, que é quem vota, também merece cultura”, afirma um indignado Dilso. Os gregos sempre entenderam os Jogos Olímpicos como um período de paz. Sob nenhuma circunstância poderiam ser iniciados conflitos bélicos e os que estavam em andamento deveriam ser interrompidos. O que se buscava era a harmonia de todos, locais e estrangeiros. Hoje em dia, essa trégua sagrada conhecida como Ekecheiria não parece mais do que um antigo mito grego.

 

*Foto e legenda do editor do blog

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