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Retração da economia aprofunda deterioração do mercado de trabalho

Publicado em

Aumenta o desemprego e diminuem os rendimentos reais dos trabalhadores

Trabalhadores na fila do desemprego em uma agência do MTE

 

Boletim de Conjuntura do DIEESE – junho n° 7*

Os indicadores mais gerais de desempenho apontam, em 2016, para a deterioração geral do mercado de trabalho, com aumento do desemprego e queda nos rendimentos reais do trabalhadores e trabalhadoras[1].

Esse comportamento é resultante do processo recessivo em que se encontra a economia brasileira, também refletido no desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1º de junho. O PIB teve variação negativa de 0,3% na comparação entre o primeiro trimestre de 2016 e o quarto trimestre de 2015. Foi o quinto trimestre seguido de contração. Na comparação com o mesmo período de 2015, a queda foi de 5,4% – oitava retração seguida nesse tipo de comparação.

Na comparação do primeiro trimestre de 2016 com os três meses iniciais de 2015, houve queda generalizada nos diversos setores da economia: a agropecuária teve retração de 3,7%; a indústria de transformação caiu 10,5%; a construção recuou 6,2%; a indústria extrativa mineral retraiu 9,6%; os serviços apresentaram contração de 3,7% e o comércio, de 10,7%. Pelo quinto trimestre seguido, todos os componentes da demanda interna apresentaram resultados negativos.

A despesa de consumo das famílias diminuiu 6,3%, resultado explicado pela deterioração dos indicadores de inflação, juros, crédito, emprego e renda ao longo do período. Já a formação bruta de capital fixo (taxa de investimento) caiu 17,5%, a oitava queda consecutiva, ficando em 16,9% do PIB no primeiro trimestre de 2016, abaixo do observado no mesmo período do ano anterior (19,5%).

As exportações de bens e serviços cresceram 13,0%, enquanto as importações de bens e serviços recuaram 21,7%, ambas influenciadas pela desvalorização cambial de 37% e pelo fraco desempenho da atividade econômica registrado nos primeiros três meses de 2016, na comparação com o mesmo período de 2015. A recessão econômica em curso resulta de uma conjunção de fatores, de origem externa e interna, conforme indicado no Boletim de Conjuntura nº 6, de março de 2016.

Externamente, podem ser destacados o fraco desempenho das economias europeias e japonesa e a desaceleração observada na China. Tais eventos repercutem diretamente sobre o nível de comércio mundial, reduzindo os mercados para os produtos de exportação e, consequentemente, provocando queda no preço das commodities (produtos de pequena diferenciação e pouco processamento industrial, negociados amplamente no mercado internacional). Isso atinge duramente países com alta dependência da exportação desses produtos, como é o caso do Brasil (com a soja, o minério de ferro, o petróleo bruto etc.). Internamente, os principais fatores ainda são de ordem política e a opção por medidas econômicas de austeridade. A impossibilidade de o governo estabelecer base mínima necessária de apoio parlamentar levou a uma situação de crescente instabilidade e, a partir de certo momento, à incerteza inclusive quanto à própria sustentação do mandato.

Por sua vez, a adoção de um conjunto de medidas econômicas visando ao reequilíbrio fiscal, principalmente pela via do corte de gastos públicos, e a dificuldade de aprovar no Congresso medidas de aumento de receitas resultaram, ao contrário, em crescente desequilíbrio, devido ao aprofundamento da retração da atividade econômica. Isso gerou um círculo vicioso de queda da atividade e da arrecadação e de aumento do déficit primário (receitas menores que despesas, exclusive o pagamento de juros da dívida).

A situação foi agravada pela alta abrupta de preços administrados pelo governo federal e pela forte desvalorização cambial, o que fez a taxa de inflação atingir outro patamar. Os impactos das ações capitaneadas pelo ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foram amplificados pela atuação do Banco Central (Bacen), que já havia iniciado novo processo de elevação sistemática e vigorosa dos juros[2], a fim de conter a alta de preços. Ademais, em 2014 e 2015, o Bacen realizou caras operações financeiras para tentar conter a especulação com o dólar e a instabilidade do real. Disso resultaram a expansão das despesas com juros[3] e a elevação da dívida pública federal. Assim, a incerteza decorrente dos problemas políticos agudos pelas quais o país passava, somada à piora nas expectativas em razão das políticas fiscal e monetária contracionistas, produziu uma aceleração da queda, já em curso, do nível de investimentos (privados e públicos).

O consumo das famílias também experimentou diminuição importante, afetado negativamente pela redução da renda – em razão da elevação do desemprego e da corrosão inflacionária do poder de compra dos salários – e a contração do crédito. Os gastos do governo, por sua vez, foram mais recentemente reduzidos, devido aos problemas fiscais já mencionados. Restou, como contraponto insuficiente, a melhora no saldo comercial com o exterior, resultado da recessão e da desvalorização cambial.

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1. Para uma análise mais detalhada sobre o comportamento recente do mercado de trabalho, ver: DIEESE. Impactos da recessão econômica e do ajuste fiscal sobre o mercado de trabalho no Brasil. São Paulo: DIEESE, maio 2016 (Nota Técnica, 159).

2. Entre e outubro de 2014 e agosto de 2015, os juros básicos foram elevados de 11,00 a 14,25% ao ano.

3. Nos 12 meses findos em março de 2016, as despesas com o pagamento de juros nominais do Setor Público Consolidado alcançaram o valor de R$443,3 bilhões.

*Extraído do Boletim de conjuntura do DIEESE – junho 2016 – n° 7  – fragmento do texto de conjuntura nacional

*Foto e legenda de responsabilidade do editor do blog

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