Assinatura RSS

Opinião ## Conjuntura: O salvamento de Dilma e a bestialização do povo

Publicado em

As duas últimas semanas foram marcadas por operações de salvamento do naufragado governo Dilma. As operações, ao que tudo indica, foram desencadeadas sem uma articulação central única, mas por conta de uma percepção geral de que é preciso colocar um ponto final ao processo de agravamento da crise, sob a ameaça de perda de controle do processo político e econômico. O setor empresarial e financeiro entrou em alerta ao perceber os riscos das pautas-bomba de Eduardo Cunha e os riscos de desestabilização institucional e de confrontos políticos caso o processo de impeachment fosse encaminhado.

11358468645_4761b1df78_b

Por Aldo Fornazieri*

A desvalorização das empresas na Bolsa, a estagnação econômica, a perspectiva de alargamento da recessão e a inflação alta fizeram os dirigentes da Fiesp e da Firjan emitirem notas pedindo estabilidade institucional. A entrevista à Folha de S. Paulo do presidente do Bradesco, Luis Trabuco, que foi no mesmo sentido, o editorial de O Globo, que atacou Eduardo Cunha e pediu moderação aos políticos e o apelo por unidade do vice-presidente da República, Michel Temer, foram um aviso de que a brincadeira do agravamento da crise precisava acabar. Todos esses movimentos foram, também, âncoras para tentar tirar Dilma de submersão definitiva.

Na sequência veio a Agenda Levy-Renan, que lançou as bases de um novo relacionamento do presidente do Senado com o Planalto, a costura de Lula com caciques do PMDB, as pontes de Temer com políticos e empresários e as pontes de Levy com empresários e financistas. Depois da marcha das Margaridas veio o apoio das centrais sindicais à presidente, ato marcado pela desastrada declaração do presidente da CUT, Wagner Freitas, que pôs quase tudo a perder. Até a rede Globo se esforçou para amenizar o desastre da declaração. Mais dois fatos positivos para Dilma ainda estavam por vir: a decisão do ministro Barroso de que as contas do governo serão julgadas pelo Congresso e não mais apenas pela Câmara e, no TSE, o julgamento da ação do PSDB pela cassação da chapa Dilma-Temer foi adiado por conta de um pedido de vista do processo, apresentado por Luis Fux.

Dilma agirá para se salvar?

Mesmo com as significativas manifestações de domingo, embora menores do que aquelas ocorridas em março e abril, a semana começa para o governo com a sensação de que o pior já passou. É verdade que muitos atores políticos e empresariais perceberam que o risco do impeachment é maior do que manter Dilma no poder. Mas a sensação de alivio pode ser enganosa e provocar novamente a arrogância no governo e a acomodação da inação política.

Convém lembrar que para Dilma o galo já cantou três vezes e nas três vezes ela fez ouvidos moucos. A primeira foi em 2013, logo após as manifestações de junho. Dilma teve aí a oportunidade de mudar sua equipe e de dar um novo rumo ao seu governo. A sua popularidade ruiu e ela se arrastou com dificuldades até as eleições de 2014 sem que nada de significativo fosse feito. No início de seu segundo mandato, teve a oportunidade de reconhecer os erros do primeiro e de refundar o seu governo, com uma nova perspectiva para o país. Nada fez. Depois da deterioração da crise, teve novo respiro após as manifestações de março e abril. Novamente nada aconteceu, o que fez com que a tese do impeachment voltasse novamente à tona. Dilma, sem força política, ficou isolada até mesmo do PT e de Lula. A bancada petista passou a apoiar algumas pautas-bomba no Congresso, para perplexidade geral.

Agora o galo cantou pela quarta vez. Dilma aproveitará esta oportunidade? Fará uma reforma ministerial? Apresentará um plano de reformas de longo prazo? Apresentará uma agenda para a retomada do crescimento? Sinalizará que está empenhada com o saneamento das contas públicas apresentando um corte consistente de gastos e a redução do número de ministérios? Mostrará que está comprometida com a justiça social, fazendo com que o ajuste fiscal, necessário, recaia com mais peso sobre os mais ricos? Dilma irá efetivamente dialogar com os movimentos sociais, com os sindicatos, com os empresários e com os partidos? Sinalizará a construção de uma agenda para o futuro com a oposição ao invés de ter que ajoelhar-se para pedir ajuda na hora do aperto? Ninguém sabe.

O fato é que há limite para tudo e talvez uma nova oportunidade não se ofereça. Tudo indica que se o governo não deslanchar, uma nova estratégia de setores da oposição e até mesmo da base governista será posta em movimento: a proposta do impeachment será substituída pela pressão pela renúncia. A fraqueza política e o isolamento de Dilma tornaram-na prisioneira de seus próprios salvadores. Deve muito a Temer, a Levy e a Lula. Deve à Fiesp, à Firjan, ao Bradesco, às Organizações Globo e a Renan Calheiros. Este terá o poder de colocar em votação as contas do governo passado e de estancar ou não as pautas-bomba. Será cobrada a pagar a fatura, a sair do isolamento, a constituir-se politicamente. Caso contrário, será abandonada.

No plano político, o salvamento de Dilma produz alguns derrotados e preserva outros. Os principais derrotados são Aécio Neves e Eduardo Cunha. Os principais preservados são Renan Calheiros e Geraldo Alckmin, que quer Dilma até 2018. Temer emergiu como a figura garantidora da estabilidade do país.

A bestialização do povo

Em memorável artigo de 15 de novembro de 1889, Aristides Lobo relatou desta forma a passeata militar que proclamou a República: “o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”. No Brasil, a história se repete… Dilma não está com o povo e o povo não está com Dilma. O povo continua bestializado. A concertação, como sempre, veio pelo alto: Sarney, Renan, Lula, Fiesp, Fijan, Rede Globo, Juízes dos altos tribunais etc.

Parte do povo foi pra rua, é verdade. Mas com uma profusão de palavras de ordem, sem foco e com a aposta errada no impeachment. Convocadas pelas redes sociais, dominadas pelo espontaneísmo, sem direção e sem organização, o destino dessas manifestações é o de se esvaírem na insubsistência. Outra parte do povo ficou em casa, atônita, perplexa, desencantada da vida, sentindo-se traída por Dilma e pelo PT.

As duas partes do povo já experimentam um sentimento comum: desencanto e desilusão com os políticos. Na noite da política brasiliense, todos os gatos são pardos. Assentada a poeira da crise, o convívio dos gabinetes, dos palácios, dos hotéis e dos restaurantes, deverá fazer com que as partes em contenda voltem ao modo civilizado de ser.

O que não estará em modo civilizado será a inflação, o desemprego, a saúde pública, a segurança, os salários, a habitação, a educação, o transporte público etc. Os partidos encontrarão novas formas para depender mais do Estado e do financiamento privado e menos da militância e do povo. Novas formas de corrupção serão inventadas. Em Brasília tudo se disporá para que as coisas girem para o advento normal de 2018. Então, o povo, bestializado, será convidado, mais uma vez, a votar. A desalentadora política brasileira seguirá adiante, arrastando atrás de si várias tragédias cotidianas naturalizadas e as violências recorrentes. A democracia continuará sendo de poucos e a República, uma grande ausente.

*Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Artigo publicado originalmente no Portal Sul21

Anúncios

Manifeste-se!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: