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Além do palavrório: o ‘discurso funcional’ do golpe para os governistas e para oposição

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Golpe, golpismo, golpistas, direita golpista, golpistas(que não passarão) tenho ouvido com intensidade e estridência o palavrório sobre a marcha inexorável da intentona em curso liderada por Aécio, Aloysio Nunes, Sérgio Moro, Malafaia e Kim Kataguiri. Tem gente que já dormita até debaixo da cama e enxerga golpistas em cada esquina. Alguns companheiros já vivem um verdadeiro  “estado de pânico” . Surgiu até a modalidade do golpe “suave”, como se isso fosse possível. Golpe é golpe! É sempre duro golpear alguém ou um governo democrático. Até a presidenta Dilma vem a público declarar “que não vai cair”, assumindo uma pauta discursiva da oposição.

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Os presidentes e a presidenta Dilma: com altos e baixos, o mais longo período democrático vivido pelo país

Cá me pergunto: Golpe sem banqueiros? Golpe sem o latifúndio e a turma do agronegócio? Golpe com Levy no Ministério da Fazenda aplicando o ajuste fiscal?Golpe sem a Febraban (adorando a escalada sideral dos juros),  CNI, CNA, Anfavea- aliás, as montadoras acabaram de ganhar um presentão do governo com o PPE…

Outra indagação: a quem serve o discurso do golpe batendo na soleira das nossas casas e forcejando as grades dos nossos prédios?

É uma resposta necessária para evitar mal entendidos e desnudar o jogo de cena em curso de setores à direita e da “esquerda oficialista” na atual conjuntura. Se é verdade que há segmentos políticos e sociais que defendem uma saída golpista ou conservadora para o impasse político que o país atravessa, é verdade também que o discurso do golpe ou da iminência do golpe vai se tornando um discurso funcional para governistas e para oposicionistas.

Para os governistas e a direção do PT, é necessário manter a esquerda do partido e os movimentos sociais prisioneiros da lógica da governabilidade pró ajuste fiscal. Ou seja, gente, pé no freio nas críticas e no combate aos efeitos perversos das medidas econômicas regressivas patrocinadas pela coalizão governista. Afinal, combater a necessidade do ajuste fiscal é “colocar água'” no moinho da oposição, o “centro é combater o golpe”. Quem não ouviu ou leu essa argumentação binária e reducionista, esquecendo ou renegando o programa agitado pela então candidata que precisou levantar as bandeiras populares para vencer o candidato tucano no segundo turno. E que depois de reeleita aplicou um mega cavalo-de-pau na economia, frustrando politicamente sua base social, o que arrastou a presidenta Dilma para o atual e impressionante grau de isolamento político.

Já para o tucanato e, principalmente, para Aécio Neves, a questão fundamental é segurar o governo na defensiva política, deixar Dilma sangrando em plena via pública, mas sem risco de vida, que chegue até o fim do mandato tão enfraquecida que a eleição de 2018 se torne um passeio dos tucanos até a Esplanada. E cá prá nós, o governo tem dado um empurrão danado nessa direção: batendo cabeça, sem iniciativa política e agenda positiva, mergulhando, cada vez mais, no volume morto da impopularidade, para usar uma expressão da lavra lulista.

A proposta de impeachment, as denuncias de corrupção, a invencionice das chamadas pedaladas fiscais e o barulho em torno da Operação Lava Jato são fatores políticos manejados na direção do debilitamento crescente do governo pela oposição institucional e midiática.

Aécio Neves radicalizou o discurso na convenção do PSDB também por necessidade de “economia doméstica”, um recado para galvanizar o apoio do antipetismo mais extremado presente hoje em diversas camadas da população e tentar inibir os movimentos do seu oponente interno, o governador paulista Geraldo Alckmin, que faz uma costura pelo centro demarcando inclusive na questão do impeachment. Na verdade, Aécio deu um toque de “marcha unida” para sua gente.

Portanto, o discurso do golpe tem se revelado bastante funcional para o governo e oposição. Enquanto isso: haja ajuste fiscal, haja redução dos direitos trabalhistas e sociais, haja cortes na educação, haja tarifaços e carestia, golpeando a renda e as condições de vida dos trabalhadores e da população mais pobre.

O próprio ex-presidente Fernando Henrique orientou as bancadas do PSDB no Câmara e no Senado a votarem a favor das medidas de ajustes.O próprio ex-presidente Lula tem defendido a necessidade do ajuste fiscal. Para não falar da base aliada no Congresso com Cunha e Renan, os dois favoráveis ao ajuste fiscal e de medidas reacionárias como a redução da maioridade penal.

Para quebrar a atual lógica binária e a falsa polarização política sobre o golpe, a esquerda política e social precisa intensificar o contato com as ruas e consolidar a agenda das reformas populares, criando as condições para um protagonismo popular que supere a retomada do projeto neoliberal, este sim, o verdadeiro golpe em curso.

E o governo Dilma para reatar com as ruas só tem uma saída: mudar a política econômica e realizar as reformas estruturais.

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  1. Manuel Navarro

    A esquerda quando vira poder acaba se desiludindo e descobrindo que não passa de um mero ” administrador ” das mesmas necessidades e vícios da direita. Poderíamos até dizer que a esquerda sonha com os mesmos mimos, ( como é ? só pensa em cargo e mordomia ? nossa quem disse isso ? ) Só que a esquerda não sabe governar, usa, abusa do estado e tem comportamento de hipopótamo obeso em loja de louça. Não sou de esquerda nem direita patrimonialista secular, sou trabalhador a favor da liberdade e do empreendorismo ( viva o 4 de Julho ! ) mas reconheço que a análise do Milton foi realista e ponderada …

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  2. Pingback: Além do palavrório: o ‘discurso funcional’ do golpe para os governistas e oposicionistas | Esmael Morais

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