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Quem nos garante um futuro melhor sem a presidente? Por Fernanda Torres

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Confira o interessante artigo da consagrada atriz Fernanda Torres sobre o cenário político. O texto revela bela erudição e recorda com solidez  fatos históricos da Revolução Francesa e seu  termidor, desembocando no 18 Brumário e na ditadura de Napoleão Bonaparte.

Da Folha de SP

Por Fernanda Torres*

Fouché

Dilma está longe de ser Luís 16, mas seu isolamento lembra as desventuras que levaram o rei à guilhotina

Radicalismos recíprocos, mágoas políticas, pobres versus ricos, morte à burguesia, arrocho financeiro, convocações, marchas, seca, escândalos, delações, a coisa tá preta.

Em meio à intempérie, dois livros têm me servido de guia: as biografias de Napoleão Bonaparte, a de Alan Schom e a de Andrew Roberts.

Sou artista e burguesa, mas não defendo o impeachment.

Os franceses deceparam a cabeça de Luís 16, enfrentaram uma década de horror e acabaram nas mãos de um general que se autocoroou imperador. Quem nos garante um futuro melhor?

Dilma está longe de ser Luís 16, mas a insatisfação popular, o isolamento, a corrupção, o revertério climático e a ruína de sua base partidária guardam paralelo com as desventuras que levaram o rei à guilhotina.

Napoleão surgiu no vácuo da turbulência que se seguiu à queda da Bastilha. Cabeças rolaram em série, primeiro a do monarca, depois a dos nobres, dos ricos, dos católicos, dos moderados girondinos e, por fim, dos extremados jacobinos.

É curioso notar o quão rápido o “em nome do povo” se transforma no “em nome dos meus”. Povo é um termo genérico, palavra retórica, usada de maneira indiscriminada pelos que almejam (ou detêm) o poder.

A campanha eleitoral que levou Dilma à reeleição é, hoje, seu maior inimigo. O feijão voando do prato dos menos favorecidos, a garantia de que não elevaria os juros e nem deixaria o trabalhador pagar pelo desajuste econômico vêm, agora, cobrar o preço da propaganda.

Existe, de fato, um erro de comunicação por parte do governo, mas ele não está no abandono da militância nas redes, como afirma estudo recente, mas, sim, no fato da reeleição ter obrigado o Planalto a adiar ajustes que deveriam ter sido feitos ao longo dos últimos anos.

Hélio de La Peña diz que a elite branca de todas as cores e ricos de todas as classes sociais foram às ruas no dia 15.

A oposição estava lá, não há dúvida, e também uma direita saudosa da ditadura, cujo crescimento preocupa não apenas no Brasil.

Se Dilma não resistir, a quem estaremos entregues?

A Revolução Francesa tem coadjuvantes tão, ou mais, interessantes do que Luís 16, Danton, Robespierre e Napoleão.

Dentre todos os que sobreviveram às mudanças abruptas da virada do século 18, Tayllerand, Sieyès, destaco aquele que entrou para a história como o Judas da Revolução.

Joseph Fouché era um plebeu, filho de marinheiros e comerciantes bem-sucedidos.

Formado em física e matemática no seminário dos Oratorianos, esteve perto de se ordenar padre, mas preferiu o magistério. Teve alunos influentes e desenvolveu estreitos laços com Robespierre –homens que, mais tarde, o ajudariam na sua ascensão política.

Prometendo lutar pela liberdade e pela igualdade, ou morrer defendendo-as, Fouché se tornou um jacobino fervoroso.

Votou a favor da decapitação de Luís 16 e promoveu a execração pública da Igreja que o formou e da nobreza que ajudou a formar.

Transmutou-se num homem do povo, laico, defensor do terror salutar. Em missão no interior do país, ainda relutante quanto às benesses da Revolução, aterrorizou Lyon, ordenando a invasão de 1.600 residências e a execução de 1.905 cidadãos, na sua maioria nobres e cultos.

Quando os jacobinos se transformaram em ameaça para o Diretório, o camaleão assumiu o cargo de ministro da Polícia, censurou jornais, prendeu jornalistas e perseguiu os radicais que, um dia, foram seus aliados.

Em seguida, tramaria com o general Bonaparte, recém-chegado do Egito, o bem-sucedido golpe de estado do “18 Brumário”, que daria cabo do Diretório, colocando um ponto final na Revolução Francesa.

Napoleão se tornaria primeiro cônsul e, numa eleição forjada, imperador. O temido Fouché preservaria o cargo de ministro da Polícia, com poder suficiente para investigar todo e qualquer cidadão, a família Bonaparte incluída.

Numa discussão acalorada, Napoleão pergunta ao ministro que atitude tomaria, caso o império caísse em desgraça.

Calmo, Fouché responde que faria tudo para apagar seu histórico bonapartista, procurando servir àquele que alcançasse o poder.

“É assim que se faz política!”, conclui Napoleão, com um sorriso admirado.

Pedir a cabeça Dilma é fácil, difícil é se livrar dos Fouchés.

*Atriz, escritora e colunista da Folha de São Paulo

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