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Arquivo do mês: setembro 2011

O direito de saber

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Por Roberto Elias Salomão*- Via Blog Lado B

A aprovação da Comissão da Verdade pela Câmara dos Deputados é mais do que um fato auspicioso: é uma providência vital. A Comissão nasce com o objetivo de apurar a responsabilidade por crimes como tortura, morte, desaparecimento forçado e ocultação de cadáveres.

Com isso, dá-se um enorme passo para que o Brasil, enfim, conheça aspectos tenebrosos de sua história recente. A Comissão poderá requisitar informações a órgãos públicos, inclusive aquelas consideradas sigilosas, e, no prazo de dois anos, deverá produzir um relatório.

Que importa que a Comissão não tenha poderes para punir os responsáveis? A essa altura do campeonato, a maioria dos torturadores já deve estar morta ou gagá. Importa, sim, que o papel dos criminosos fique devidamente registrado na história.

A criação da Comissão da Verdade tem ainda o mérito de corrigir a absurda situação vigente, em que os crimes de tortura e assassinato estão perdoados e não se fala mais nisso. Não, não pode haver perdão nesses casos, ainda que a punição não seja a cadeia, mas a execração pública.

É bom lembrar que a proposta desta Comissão da Verdade estava incluída no Programa Nacional de Direitos Humanos, assinado por Lula em 2009 e que recebeu críticas de diversos setores.

Na universidade, estudei com uma das filhas de Rubens Paiva (Marcelo ainda era um guri). Tive uma namorada cujo pai bancário, demitido por supostas ligações com o Partido Comunista, enfrentava enorme dificuldade para sustentar a família. Participei do ato ecumênico em memória de Alexandre Vanucchi Leme, morto pela repressão, e ajudei a paralisar a USP em repúdio ao assassinato de Vladimir Herzog. É preciso sepultar de vez a indigna tese de suicídio de Vlado.

É difícil encontrar alguém da minha geração que não tenha tido contato com a repressão ou que não tenha um amigo, parente, vizinho ou conhecido nessa situação. E ainda há quem sustente que o que houve no Brasil foi uma “ditabranda”, se comparada aos horrores das ditaduras argentina e chilena. Quem precisa desse tipo de comparação?

Eu quero saber tudo. Tenho esse direito. Mas não apenas eu. É direito de todos os cidadãos. É preciso lançar luz sobre as masmorras, ainda que o horror nos choque.

*Jornalista

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A largada de Fruet

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Nas escadarias da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade, Gustavo Fruet anunciou a sua filiação ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), comandado no estado pelo ex-senador Osmar Dias. Foi um gesto inovador, que mobilizou centenas de lideranças políticas, jornalistas e populares.

A filiação de Fruet ao PDT era esperada, um movimento construído pacientemente ao longo de meses, cada momento foi medido, o que vem caracterizando o estilo de Fruet: Sem bravatas, sem arroubos e com habilidade ele vai tecendo o seu caminho.

Hoje na sua fala o pré candidato pedetista foi no ponto: Fez a aposta no discurso renovador, afinal o consórcio político-econômico que comanda a cidade há mais de vinte anos demonstra sinais de fatiga. Além disso, apontou a ligação perigosa da dupla Beto/Ducci com Derosso, presidente da Câmara Municipal, alvo de uma CPI por conta de licitações fraudulentas e contratos fantasmas, que resultaram num rombo R$ 30 milhões. E também anunciou a sua futura agenda: conversar ( e muito) para costurar uma forte aliança política, uma obsessão a partir de agora – conforme declarou.

A decisão de Fruet moveu uma peça no tabuleiro da disputa eleitoral de Curitiba, sinalizando claramente para um campo político e, ao mesmo tempo, se apresentou para fazer a disputa de idéias e projetos por um novo modelo de gestão para a cidade. Fruet tem o que falar, conhece a cidade e disputa o imaginário do curitibano com inventividade e consistência.

Com a largada de Fruet, o cenário tende a ganhar maior nitidez. Ducci deve apressar as suas definições, principalmente a questão do candidato à vice, motivo de pesado conflito no bloco situacionista. Ratinho Jr (PSC), bem situado nas pesquisas, vai testar o seu alcance e poder de atração. O PT, ator fundamental no processo, também avalia a melhor estratégia a seguir. O PMDB, fraturado, lançou o ex deputado Rafael Grecca, mas setores do partido flertam com Fruet e também com Ducci. Há ainda o PV e o PPS sem maiores definições até o momento. No caso do PV, é possivel uma composição com Fruet. Já o PPS vive um momento de fricção na aliança situacionista.

Muita água vai rolar ainda no moinho das eleições do próximo ano, mas a verdade é que a movimentação de Fruet mexeu em todo tabuleiro político de Curitiba. Enfim, foi dada a largada.

A batalha político-imobiliária pelo controle de Jerusalém

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Em 1947, logo após a divisão da Palestina, a ONU colocou Jerusalém sob mandato internacional. No ano seguinte, com a guerra da independência, Israel se apoderou do setor oeste da cidade, enquanto que o setor oriental passou para controle da Jordânia. Durante a Guerra dos Seis Dias (1967), Israel anexou Jerusalém Oriental. Hoje, à força de investimentos, compra de terras e restrições específicas aos palestinos, Jerusalém se move entre a modernidade de seu setor israelense e a pobreza da parte oriental. Jerusalém é o território de um combate imobiliário em cujo interior se movem as sombras da geopolítica.

Por Eduardo Febbro – (Direto de Jerusalém) Sitio Carta Maior

Cada pedra é um conflito, cada muro uma leda, cada rocha o rastro sagrado de algum Deus diferente: Jerusalém. Suprema, mágica, polifônica, acolhedora, juvenil, discriminatória e veloz. Capital “eterna” para os judeus, capital da palestina “histórica” para os palestinos, capital fundacional do cristianismo, Jerusalém é uma viagem dentro da viagem, um labirinto de ódio e de amor que está no centro da disputa territorial entre israelenses e palestinos, onde intervém corporações secretas, milionários norteamericanos, ritos religiosos corrompidos por dólares, capitais árabes bloqueados e uma política urbana de manifesto isolamento.

Uma mesma cidade, três religiões, islamismo, cristianismo, judaísmo, três histórias, dois nomes diferentes: Yerushalayim – a paz aparecerá – para os judeus, Al Qods – a santa – para os árabes. Nesta capital poliglota, de cruzes e contrastes, convergem os relatos fundadores das três religiões monoteístas: para os árabes, Jerusalém é, depois de Meca e Medina, o terceiro lugar santo do Islã. Para os judeus, Jerusalém é a cidade conquistada pelo rei Davi no ano de 1004 antes de Cristo, logo depois de Davi se unir às tribos de Israel. Para os cristãos, Jerusalém é o epicentro dos atos fundadores do cristianismo, o lugar onde Cristo viveu a paixão e a ressureição. Jerusalém, capital de quem? A resposta é inequívoca. Como diz Khaled, um comerciante da célebre rua Salah Ad Din, de Jerusalém Oriental: “é de quem tiver mais capital e poder para se apropriar dela”.

Em 1947, logo após a divisão da Palestina, a ONU colocou Jerusalém sob mandato internacional. No ano seguinte, com a guerra da independência, Israel se apoderou do setor oeste da cidade, enquanto que o setor oriental passou para controle da Jordânia. Mas durante a Guerra dos Seis Dias (1967), Israel anexou Jerusalém Oriental. Em 1950, a cidade foi declarada capital do Estado de Israel e, em 1980, a Knesset, Parlamento israelense, a elevou à condição de “capital eterna”. Hoje, à força de investimentos, compra de terras e restrições específicas aos palestinos, Jerusalém se move entre a modernidade de seu setor israelense e a pobreza da parte oriental. Um mundo estagnado, marcado pela ausência de infraestrutura urbana e falta de investimentos, e outro mundo desenvolvido, uma cidade moderna, luminosa e cuidada.

A fronteira entre a luz e a limpeza e o caos e a miséria é invisível. Basta descer até o começo de Jaffa Street, dobrar à esquerda, caminhar trezentos metros e, pronto, você está em outro planeta. Na parte leste da cidade não há cinemas, nem teatros, nem bares atraentes. Apesar de seu declarado laicismo, o prefeito de Jerusalém, Nir Barkat, mantem as limitações aos investimentos palestinos em Jerusalém. Ainda que representem 59% da população de Jerusalém Oriental, os palestinos só estão autorizados a construir em 13% desse setor. As permissões de construção demoram uma década para serem outorgadas. Isso leva os palestinos a erguer construções ou ampliar suas casas sem autorização, o que implica a imediata demolição desses puxados.

As cifras sobre os investimentos municipais são eloquentes. Os palestinos representam 35% da população global, mas só entre 10 e 12% do orçamento municipal é utilizado para investimento em obras de infraestrutura no setor leste. Cerca de 80% das ruas corretamente asfaltadas e dos bueiros em bom estado estão na zona judia da cidade, onde também há 1.000 jardins públicos contra 45 em Jerusalém Oriental. Persiste uma inesgotável sensação de que tudo é feito para levar os palestinos a deixar Jerusalém.

Nada reflete melhor a complexidade da situação do que o bonde inaugurado em 2011. A linha percorre 14 quilômetros em ambos os sentidos, desde o bairro de Pisgat Zeev, em Jerusalém Leste, até Monte Herzl, na parte oeste. Em seu trajeto, a linha é uma espécie de bomba geopolítica: passa pelos bairros judeus construídos no setor de Jerusalém anexado logo depois da Guerra dos Seis Dias e onde a soberania do Estado de Israel não está plenamente reconhecida pela comunidade internacional.

Em termos do direito internacional, a ocupação e a posterior anexação de Jerusalém Leste foram condenadas pelas resoluções 241, 446, 452 e 465 das Nações Unidas, além de contraria a quarta Convenção de Genebra. A guerra pela posse da cidade tem atores econômicos de peso que jogam entre as sombras e antecipadamente a carta que pode conduzir ao reconhecimento de um Estado Palestino com Jerusalém Leste como capital. Por isso, com lances de milhões, compram o máximo de áreas possíveis.

Os negócios da Richard Marketing Corporation deram lugar a um dos controversos episódios desta confrontação pelas pedras sagradas. A Richard Marketing Corporation é, na verdade, a cobertura da organização sionista Ateret Cohanim, atrás da qual se encontra o milionário norteamericano Irving Moscowitch. Há anos, a corporação vem se dedicando a comprar casas palestinas e áreas situadas na Cidade Velha de Jerusalém, ou seja, no olho do furacão: ali estão a Mesquita de Al-Aqsa (Maomé foi de Meca até a Mesquita de Al-Aqsa), o Domo da Pedra (os muçulmanos acreditam que Maomé subiu aos céus neste local), o Muro das Lamentações (o último vestígio do Templo de Jerusalém, que é o emblema mais sagrado do judaísmo), a Esplanada das Mesquitas e um sem número de edificações ligadas à história do cristianismo, entre elas o Santo Sepulcro.

A Cidade Velha, localizada em Jerusalém Oriental, está dividida em quatro setores: muçulmano, judeu, cristão e armênio. Ali a corporação colocou seus dólares para comprar casas palestinas, cristãs e, sobretudo, áreas e secessões negociadas com a Igreja Ortodoxa Grega. O patriarca Irineu primeiro, hoje recluso em sua espiritualidade, cobrou vários milhões por baixo da mesa em troca de um “aluguel” de 99 anos de um dos lugares mais emblemáticos da Cidade Velha, situado na Porta de Jaffa. Por curioso que pareça, partindo desde a Porta de Jaffa, a primeira placa indicando o Santo Sepulcro está escrito em vários idiomas, incluindo o hebraico, menos em árabe.

Arieh King, um membro notório de Ateret Cohanim, levou anos comprando quantas casas aparecessem em seu caminho na Cidade Velha e em Jerusalém Oriental. Homem franco e sem rodeios, King está a frente da organização Israel Land Fund. Não tem nada a ocultar: “Jerusalém é o lugar mais importante do projeto sionista. Nós estamos comprando dos árabes para colocar judeus em seu lugar. Não aceitamos que Jerusalém seja dividida”. Arieh King é um autêntico agente imobiliário da judaização de Jerusalém e não esconde isso. Tem em seu “currículo” dezenas de casas compradas e – isso ele não confessa – acordos de compra e aluguel com várias congregações cristãs sensíveis ao dinheiro em cash. Nada o detém, nem sequer a compra de casas palestinas e, além do preço elevado que paga, consegue “a obtenção de um visto para que o vendedor vá para o exterior”.

A história de Arieh King merece um capítulo a parte. Sua atividade, financiada com fundos provenientes do mundo inteiro, tem o mérito da transparência ao mesmo tempo em que revela a luta pela posse da Cidade Santa. “Trabalho para o futuro da nação judia”, proclama sem titubear. Os cristãos palestinos denunciam essa política aplicada de judaização de Jerusalém. Árabes, muçulmanos e cristãos de Jerusalém viram a maneira pela qual, pouco a pouco, as casas situadas nas ruelas da Cidade Velha que levam ao Templo foram mudando de proprietário.

A batalha imobiliária é uma corrida contra o relógio. Para retomar as negociações de paz, além das fronteiras de 1967, do fim da colonização e do retorno dos refugiados, a Autoridade Palestina reivindica como condição que Jerusalém Oriental seja a capital de um futuro Estado Palestino. Políticas de Estado, municipais e agentes privados participam dessa corrida. Jerusalém é o território de um combate imobiliário em cujo interior se movem as sombras da geopolítica.

Tradução: Katarina Peixoto

A luta e a arte de Espedito será homenageada hoje com lançamento de livro no MON

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De volta ao desenvolvimentismo

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Por Bresser Pereira*

Desde 1991 a política econômica do Brasil se pautava pelo ortodoxia convencional ou o consenso de Washington. A partir, porém, de 2006, já com Guido Mantega no Ministério da Fazenda e Luciano Coutinho no BNDES, o governo Lula começou a mudar a estratégia de desenvolvimento em direção ao novo desenvolvimentismo.

Em 2009 um passo decisivo nesse sentido foi dado com o início do controle da entrada de capitais. Agora, no nono mês do governo Dilma Rousseff, a decisão do Banco Central de baixar a taxa de juros, surpreendendo o mercado financeiro, e a decisão do governo de taxar a importação de automóveis com menos de 35% de conteúdo nacional consolidam essa mudança.

O aprofundamento da crise mundial tendo a Europa como epicentro e o desaquecimento da economia brasileira confirmam a boa qualidade da decisão.

O novo desenvolvimentismo não é uma panaceia, mas está ancorado teoricamente em uma macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, tem como critério o interesse nacional, e sabe que este só pode ser atendido por governantes que em vez de aplicarem fórmulas prontas avaliam cada problema e cada política com competência. Adotado com firmeza e prudência, o Brasil crescerá a taxas mais elevadas, com maior estabilidade financeira, e com a inflação sob controle.

Enquanto o tripé ortodoxo é “taxa de juros elevada, taxa de câmbio sobreapreciada, e Estado mínimo”, o tripé novo-desenvolvimentista é “taxa de juros baixa, taxa de câmbio de equilíbrio, que torna competitivas as empresas industriais que usam tecnologia moderna, e papel estratégico para o Estado”.

Enquanto para a ortodoxia convencional os mercados financeiros são autorregulados, para o novo desenvolvimentismo apenas mercados regulados podem garantir estabilidade e crescimento.

Novo desenvolvimentismo e ortodoxia convencional defendem a responsabilidade fiscal, mas o mesmo não pode ser dito em relação à responsabilidade cambial. Enquanto o novo desenvolvimentismo rejeita os deficits em conta corrente, a ortodoxia convencional os promove, e, assim, se comporta de maneira populista (populismo cambial).

Argumenta que a “poupança externa” aumentaria o investimento do país, mas, as entradas de capitais para financiar esses deficits aumentam mais o consumo do que o investimento, endividam o país, o tornam dependente do credores e de seus “conselhos”, e resultam em crise de balanço de pagamentos.

O Brasil, ao retornar ao novo desenvolvimentismo, está voltando a se comportar como uma nação independente. Havia deixado de agir assim em 1991, porque vivia profunda crise, e porque a hegemonia neoliberal americana sobre todo o mundo era, então, quase irresistível.

Mas desde meados da década passada a sociedade brasileira começou a perceber que o projeto neoliberal era um grande equívoco, e que havia uma alternativa para ele. Como a crise financeira global de 2008 demonstrou de maneira cabal, as políticas econômicas neoliberais não eram boas nem mesmo para os países ricos.

Dessa maneira, a hegemonia neoliberal entrou em colapso, e as forças desenvolvimentistas -os empresários industriais, os trabalhadores e uma parcela da classe profissional- fortaleceram-se, o que abriu espaço para que o governo Dilma aprofundasse seus compromissos para com elas. Um novo e amplo pacto político está se formando no Brasil. Vamos esperar que leve o Brasil mais depressa para o desenvolvimento.

*Artigo publicado hoje na Folha de São Paulo

O bairro São Francisco entre a especulação imobiliária e a preservação

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O São Francisco é o mais antigo bairro da cidade. Foi a nucleação inicial de Curitiba e até hoje no bairro está localizado grande parte do setor histórico. Seu nome está estritamente ligado a historia da igreja da ordem terceira de São Francisco das Chagas.

Seu primeiro nome foi: Pátio de Nossa Senhora do Terço. Em 1752, com a transferência da igreja ao religiosos Franciscanos passou a se chamar de Pátio de São Francisco das Chagas. Em 1860, seu nome mudou para Largo da Ordem Terceira de São Francisco. O próprio tempo e a tradição popular encurtaram o nome do bairro. No inicio do século XX foram elaborados os primeiros mapas, com divisão de bairros em Curitiba, e já indicavam a região com o nome de São Francisco.

Encravado na área central de Curitiba, o São Francisco, como todo bairro cêntrico, vive os altos e baixos dos fenômenos urbanos das grandes cidades, oscilando entre fases de valorização e fases de desprestígio. No entanto, nos anos recentes, todos os bairros da área central atravessam um período de valorização continuada, o que acentua a pressão organizada de incorporadoras, empresas do ramo da construção civil e de projetos e empreendimentos imobiliários – vários em curso na região. Os preços dos imóveis e dos terrenos alcançaram uma valorização de mais 150%.

O São Francisco é diversificado e com múltiplas vocações. Reune o sítio histórico fundamental de Curitiba. Além disso, turismo, gastronomia, atividades e espaços culturais pontificam na cena do bairro. Um comércio amplo e variado, na maioria de pequeno e médio porte, alguns estabelecimentos são centenários, também são componentes da paisagem do bairro. Ou seja, interesses e vocações sedimentadas.

Neste sentido, a presença crescente de negócios ligados aos interesses imobiliários, disputando os espaços da região, vai impactar, cada vez mais, na feição original do São Francisco. Como preservar e revitalizar o bairro é uma pergunta sempre na ordem do dia para os moradores, já que a administração municipal é prisioneira da lógica da especulação imobiliária. 

Enquanto a contradição perdura vamos continuar curtindo o Largo da Ordem, o Passeio Público, o Torto, o Sal Grosso, a Padaria América, a barbearia do Silvino, a Sociedade 13 de maio, a Casa Romário Martins, a Igreja do Rosário, o Casarão da Upe, o cavalo babão, o relógio das flores, a feirinha nos domingos e na época do carnaval, os Garibadis e Sacis.

A Comissão da Verdade e os argumentos cínicos da direita

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A questão suscita ampla polêmica e, ao mesmo tempo, significa um ajuste de contas com a história do país, particularmente o período de vigência da ditadura fascista (1964-85). Neste sentido, o editorial do Portal Vermelho aqui reproduzido aborda com acerto e profundidade o ‘xis’ da questão. Confira!

Na avaliação de Nilmário Miranda, ex-secretário nacional dos Direitos Humanos no governo Luíz Inácio Lula da Silva, a aprovação da Comissão da Verdade pela Câmara dos Deputados (dia 21) foi o quarto momento da redemocratização desde a Lei de Anistia (1979), a criação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos (1995) e da Comissão da Anistia (2001).

É um longo período, que pode ser contado em décadas desde 1979, no qual se repete a lentidão dos passos progressistas e democráticos no Brasil, travados pelo freio representado pelo medo conservador da verdade, medo que impõe negociações e delongas.

Na questão da apuração dos assassinatos políticos, tortura e atentados aos direitos humanos cometidos durante a ditadura militar (1964-1985), estes interesses estão vivos, atuantes e têm representação no Congresso Nacional, como se pode ver mais uma vez na tramitação e demora para a aprovação da Comissão da Verdade, embora ela exista e funcione em cerca de 40 países que fizeram o trânsito de regimes ditatoriais para a democracia.

A resistência contra a apuração e revelação dos responsáveis por aquele passado tenebroso é diretamente proporcional à força política ainda mantida por setores da classe dominante envolvidos com a repressão política. O passado destes setores é a fonte do medo à verdade. Eles foram a face civil da ditadura e estiveram envolvidos no mínimo com o financiamento do aparato repressivo e, evidentemente, usam todo seu poder para impedir que a verdade da tortura e assassinato políticos seja exposta para a nação.

Há também aqueles que tergiversam e querem uma apuração “imparcial” que envolva também militantes da resistência democrática que pegaram em armas contra a tirania. O deputado da direita Jair Bolsonaro tentou evitar a obrigatoriedade de militares atenderem às convocações para depor. Foi derrotado pelo plenário na votação da Comissão da Verdade. O ex-ministro Jarbas Passarinho, importante quadro da direita militar desde a década de1950 e expoente da ditadura militar, quer incluir a apuração da atividade dos guerrilheiros no Araguaia, opinião hipócrita, primeiro porque a própria ditadura escondeu os corpos dos guerrilheiros presos e assassinados por agentes da repressão que, mais de 40 anos após aqueles acontecimentos, insistem em ocultar e manter em segredo a barbárie da repressão e o fim dado aos restos mortais daqueles heróis. E depois porque o alvo de Passarinho é o Partido Comunista do Brasil. Qual o significado de sua opinião? Não havendo guerrilheiros para julgar pois foram assassinados e seus corpos escondidos, ele quer colocar em julgamento o PCdoB, que dirigiu a resistência democrática e patriótica no Araguaia. Passarinho esconde, por traz do biombo da “imparcialidade”, um sólido sentimento revanchista, anticomunista e antidemocrático.

Alegações conservadoras como estas repercutem na Câmara dos Deputados. A deputada comunista Jandira Feghali (PCdoB-RJ) qualificou-as, corretamente, como cínicas. “Tivemos, lamentavelmente, que ouvir argumentos cínicos daqueles que pretendem tratar da mesma forma os atos criminosos cometidos durante o período da ditadura militar” e a resistência contra a ditadura, acusou a parlamentar.

A Comissão da Verdade terá sete membros nomeados pela presidente Dilma Rousseff, mais outros 14 servidores do governo federal. Seu objetivo, expresso na lei que a criou, será, entre outros, esclarecer as graves violações de direitos humanos ocorridas em seu período de investigação, que vai de 1946 a 1988 mas cujo foco é a ditadura, de 1964 a 1985; esclarecer de maneira circunstanciada os casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria; identificar e tornar públicos as estruturas, os locais, as instituições envolvidas naqueles crimes, incluindo suas eventuais ramificações nos diversos aparelhos estatais e na sociedade; recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir violação de direitos humanos e assegurar sua não repetição, promovendo a efetiva reconciliação nacional.

Suas limitações são previsíveis. A principal delas será o impedimento de julgar ou criminalizar os torturadores e assassinos políticos da ditadura, protegidos pela Lei de Anistia e pela interpretação vigente que acatou a proteção aos chamados “crimes conexos” que figura naquela lei. Mesmo assim, sua constituição – que agora depende de aprovação pelo Senado – é um grande passo democrático. A Comissão da Verdade vai identificar os responsáveis por aqueles crimes, expondo-os ao conhecimento do país. Se efetivamente isto ocorrer, corresponderá na prática a um julgamento e uma condenação morais da ação criminosa daqueles agentes da repressão política.

Outro avanço é representado pela determinação de propor ações contra a tortura que ainda ocorre em delegacias brasileiras, uma herança perversa que se mantém justamente pela impunidade que protege aqueles que cometem violências contra presos que estão sob custódia do Estado.

Além disso, há uma promessa implícita na aprovação da Comissão da Verdade, expressa pela esperança manifestada por Nilmário Miranda de que ela não encerre o processo nem seja a última página da transição, mas um passo no rumo do estabelecimento da Justiça – e fortalecimento da democracia, pode-se agregar. Esperança com partilhada por outro ex-secretário nacional dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, para quem a revelação daqueles casos escabrosos poderá levar o Judiciário a uma nova jurisprudência, permitindo a punição dos torturadores e assassinos políticos. Este será um novo passo e, dada a resistência conservadora cúmplice daqueles crimes, uma nova luta.

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