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Arquivo do mês: março 2011

Alencar, guerreiro do Brasil

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Reproduzo o editorial do Portal Vermelho, publicado hoje por ocasião do falecimento do ex-vice presidente da República José de Alencar

O Brasil perdeu nesta tarde um de seus filhos mais ilustres e reverenciados, o ex-vice-presidente da República José Alencar, levado por um câncer ao qual resistiu durante 13 anos e 17 cirurgias que retiraram 20 tumores de seu corpo.

Ele nunca se rendeu, e esta talvez tenha sido a característica mais marcante deste personagem que entra para a história armado de amor pelo Brasil. Foi um brasileiro com a cara dos brasileiros: começou a trabalhar cedo, em sua Muriaé, no interior mineiro. Primeiro na loja do pai, quando tinha sete anos de idade; depois, no primeiro emprego, aos 14. Tinha pouco mais de 18 quando abriu sua primeira loja, em Caratinga. E daí até se tornar proprietário de um dos maiores grupos têxteis brasileiros, a Coteminas, foi outro tanto: tinha 35 anos quando participou de sua fundação.

Era um grande empresário, portanto, quando Lula o escolheu como vice na eleição de 2002. Houve resistência, mas o acerto da escolha logo ficou evidente: Alencar era um dirigente empresarial importante e respeitado e um senador (foi eleito pela primeira vez em 1993, com 62 anos de idade!) de enorme prestígio, e, ao mesmo tempo, um militante da causa do Brasil e de seu povo. Foi uma espécie de ponte entre a candidatura das forças avançadas e progressistas com empresários que temiam o fantasma de um presidente operário.

José Alencar encarnou, partilhando a Presidência da República com Lula, uma espécie de reedição da aliança, buscada desde a década de 1950, entre o grande empresariado industrial nacional e os trabalhadores. Com a diferença sensível de que Alencar, sendo um grande empresário, se distinguia entre seus pares pela coragem política de tornar essa aliança efetiva, como deixou claro durante os oito anos em que partilhou a presidência com Lula. Era mais uma voz do povo, dos que produzem e trabalham, dentro do governo. Uma voz bem humorada mas afiada e altissonante, que ajudou a construir o êxito do primeiro governo brasileiro dirigido por um operário e sindicalista.

Era um político e líder empresarial que tinha um projeto e esse projeto era o Brasil. Talvez tenha sido a encarnação contemporânea daquilo que, no passado, se chamou “burguesia brasileira”, só que com mais determinação, clareza e coragem. Que, num ambiente empresarial extremamente conservador, sempre apoiou e defendeu o Partido Comunista do Brasil – amizade soldada pelo projeto comum de defesa do país e do povo.

José Alencar, que da mesma maneira como o presidente Lula, teve origem nas camadas mais pobres da população, homem do interior que nunca rompeu com o sonho de um país progressista, democrático e moderno, foi um guerreiro. No governo, jamais vacilou na luta contra o vampirismo financeiro que, através das altas taxas de juros, exaure os trabalhadores, o setor produtivo e a nação. E batia duro naqueles que, dentro e fora do governo, defendiam, aplicavam e se beneficiavam dessa política que sempre denunciou como uma agiotagem imposta ao país.

Ao longo dos oito anos em que serviu ao país como vice-presidente, diluiu todas as desconfianças manifestadas no momento de sua escolha como companheiro de chapa de Lula e ganhou o amor de seu povo.

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No Uruguai Lula defende realizações da esquerda

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Lula e Jorge Brovetto (pres. Fente Ampla) no ato no Ginásio do Peñarol

Via Site Carta Maior

No dia 26 de março de 1971, dezenas de milhares de uruguaios realizaram um ato político tão massivo, tão grande e tão bem organizado que todo o país ficou comovido. Aquele ato marcou o surgimento da Frente Ampla. No 40° aniversário da manifestação, Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos destaques do ato. Lula se posicionou como um homem de esquerda que mudou radicalmente a realidade do maior país da América do Sul, que fez seu povo acreditar que podia desenvolver o país e mudar todos os seus indicadores sociais. O compromisso da esquerda, acrescentou, é com o fim da pobreza e com uma nova etapa de consolidação de justiça e de direitos.

Milton A. Ramírez – Uypress*

Na noite de 26 de março realizou-se em Montevidéu o 40° aniversário de comemoração do ato político que mudou a história do Uruguai. Para a esquerda uruguaia é uma data muito importante. No dia 26 de março de 1971, dezenas de milhares de uruguaios realizaram um ato político tão massivo, tão grande e tão bem organizado que todo o país ficou comovido. Aquele ato original representou o primeiro marco de uma nova realidade política que demonstrava que havia uma parcela da cidadania que queria mudanças no rumo do país e que batizava uma nova organização, surgida no mês anterior e chamada Frente Ampla, com a presença massiva da cidadania na rua.

Os partidos tradicionais do Uruguai, Branco e Colorado, compreenderam rapidamente que este novo partido em forma de frente política estava surgindo para disputar uma porção importante do poder. Até ali puderam ver. A história continuaria.

O ato de 26 de março de 1971 evidenciou o mais importante, no que se refere aos destinos da República. Havia um modelo de governar, uma forma de fazer política que estava esgotada. Os ancestrais partidos Colorado e Nacional estavam sem um norte para seguir. Não tinham um projeto nacional. Seu ciclo estava começando a declinar enquanto este novo partido formulava sua visão da sociedade no longo prazo, propunha medidas no médio prazo, formulava de forma estruturada um programa de governo e, além disso, havia lançado um conjunto de 30 medidas urgentes de curto prazo para solucionar os problemas mais importantes do país.

O resto da história já é um pouco mais conhecida. A Frente Ampla chegou ao governo em 2004 com o apoio de mais da metade da cidadania do país. Passou daqueles 7 deputados e 4 senadores para uma maioria absoluta das duas câmaras, até o dia de hoje. O país cresceu e cresce a taxas muito altas que foram entre 4% até os 8,5% de 2010, e todos os indicadores sociais melhoraram quantitativamente e qualitativamente. Não é preciso abusar das cifras neste tipo de nota.

A esquerda
Logo depois do processo exitoso vigente, a esquerda também começou a repensar seu destino. A esquerda precisava de uma sacudida de ideias que a permitisse posicionar-se em direção ao futuro e seus compromissos na elaboração de uma sociedade melhor. Mas agora a esquerda podia e pode elaborar suas ideias e seus projetos com uma mudança substancial, um profundo conhecimento da realidade. A época das consignas passou a uma época de outra riqueza. Agora a esquerda elabora suas ideias e seus programas, seus planos, suas políticas e suas medidas executivas baseadas na mais clara e concreta das realidades. Das realidades reais, digamos.

Esquerda radical
E Lula veio e falou disso. O homem duas vezes presidente do Brasil, torneiro mecânico de origem, não esqueçamos deste dado, falou à esquerda uruguaia. Falou desde a emoção das palavras e sentimentos, mas se posicionou como um homem de esquerda que mudou radicalmente a realidade do maior país da América do Sul, que fez seu povo acreditar que podia desenvolver o país, que podia desenvolver sua indústria, que podia mudar todos os indicadores sociais, que era possível ingressar em uma nova cultura de desenvolvimento e de construção de uma nova autoestima no marco da integração em pé de igualdade com os demais países da região.

Reconheceu todas as dificuldades, mas marcou a realidade dos números sociais e produtivos. Números que implicam que, em cada um deles, há seres humanos de carne e osso. Números que implicam que o norte da preocupação e das responsabilidades da esquerda é o fim da pobreza, o fim dos miseráveis e o começo da nova etapa de consolidação de justiça e de direitos.

E Lula parou diante dos EUA. Deu as costas à lisonja de Obama, e deu as mãos às economias latino-americanas com as quais hoje tem um sustentável e equilibrado comércio exterior, tema que destacou em seu discurso em Montevidéu. Lula falou do desenvolvimento, mas de um desenvolvimento em integração. Falou do imperialismo, mas disse que o Brasil não ia construir um novo imperialismo e que essas ideias que algum momento já estiveram na cabeça de alguns, hoje, deram lugar à via da verdadeira integração multilateral, da integração da América Latina.
Lula disse: somos companheiros, somos parceiros, somos uma nova realidade que chegou para mudar a realidade sem olhar nunca mais os paradigmas dos países desenvolvidos. Países que hoje estão vendo que eles, os desenvolvidos, podem rapidamente “latinoamericanizar-se”, ao velho estilo do empobrecimento e endividamento infinito de seus países.

Uruguai
No final do ato, a Frente Ampla exibiu um vídeo de cerca de 10 minutos. Essa peça traz a mais exata síntese do que a esquerda está fazendo e concretizando. Sempre se pode aparentar muito mais, com palavras radicalmente estrondosas. Mas as mudanças radicalmente revolucionárias são as que esse vídeo mostrou com simplicidade e precisão.

*(UyPress – Agência Uruguaia de Noticias)
*Tradução: Katarina Peixoto

Curitiba, 318 anos: Entre o passado da “cidade modelo”, um presente já velho e o futuro, em aberto

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Via Redacão Blog Lado B

“Quantas Curitibas diferentes existem? Como se dá o acesso aos serviços públicos, aos bens culturais, aos bens de consumo, ao esporte, ao lazer, em cada região da cidade?”

por Dr Rosinha*

Quantas cidades cabem dentro de uma mesma cidade? Aos 318 anos completados neste 29 de março, Curitiba tem mais de 1 milhão e 746 mil habitantes, conforme o Censo 2010 do IBGE. E um PIB per capita de R$ 23,7 mil, segundo dados de 2008.

Em bairros como Batel e Jardim Social, o rendimento médio dos chefes de família chega a ser até 15 vezes superior ao valor médio dos bairros mais pobres. Enquanto o do Batel recebe R$ 8.839 por mês, o do Tatuquara, por exemplo, dispõe de R$ 798.

Não fosse pelo processo de expulsão contínua de faixas de menor poder aquisitivo – cada vez mais empurradas para as cidades da região metropolitana – , essa incrível disparidade dos indicadores sociais entre os bairros de Curitiba seria ainda mais gritante.

Afinal, quantas Curitibas diferentes existem? Como se dá o acesso aos serviços públicos, aos bens culturais, aos bens de consumo, ao esporte, ao lazer, em cada região da cidade?

De “capital ecológica” à “cidade da gente”, passando pela “capital social”, o que vemos em Curitiba é uma gestão municipal dominada, há décadas, por um mesmo grupo político-econômico. Um grupo hoje já envelhecido que, com seus sucessivos slogans vazios, produziu o mito de “cidade modelo” ou “de primeiro mundo”. E não muito mais do que isso.

Um mito alimentado pela propaganda, materializada na figura de Jaime Lerner, desde quando prefeito biônico, durante a ditadura militar. Autointitulado “pai” de uma Curitiba supostamente “moderna”, nem mesmo as vias “rápidas”, no entorno das canaletas, foram uma obra de sua autoria. O projeto, na verdade, é da década de 1960, anterior à primeira gestão do ex-prefeito.

Desde quando uma cidade que detém os indicadores de violência de Curitiba pode se intitular “modelo”?

A taxa de homicídios por habitante em Curitiba (56,5 a cada 100 mil) é quase quatro vezes maior que a de São Paulo (14,8). E quase o dobro da do Rio de Janeiro (31).

Entre os anos de 1998 e 2008, o total de homicídios na capital do Paraná triplicou –passou de 352 para 1.032. Nesses dez anos, a cidade passou de 18ª para 6ª entre as 27 capitais do país com maior proporção de homicídios por habitante.

Pasme-se especialmente com este dado: Em 2008, morreram mais jovens de 18 a 24 anos de idade assassinados em Curitiba (428) do que em São Paulo (423), apesar de a capital paulista ter uma população mais de seis vezes maior.

Diante de tamanho quadro de degradação, é preciso envolver as universidades e o conjunto da sociedade de Curitiba para debater políticas públicas de segurança. Estimular a prática esportiva e o acesso à cultura nos bairros. Investir mais em educação, saúde e assistência social.

Além da segurança, a população de Curitiba sofre pela ausência de políticas públicas em uma série de outras áreas.

As mesmas estações-tubo e seus expressos bi-articulados, tão fotogênicos em cartões postais e propagandas, são demonstrações diárias de ineficácia, lentidão e superlotação para quem os usa.

Certamente a cúpula da Urbs não costuma (tentar) embarcar num Santa Cândida-Capão Raso às seis da tarde em plena Estação Central. Ou um Inter 2 às sete horas da manhã. Não precisa esperar, sob chuva, a fila do expresso ou do ligeirinho, do lado de fora do tubo. Ou se postar como verdadeira sardinha, isso tudo pagando uma tarifa de R$ 2,50, um verdadeiro assalto.

Na falta de uma integração inteligente, uma só pessoa paga até R$ 10 por dia para trabalhar, caso tenha que pegar dois ônibus fora de terminais. Com a bilhetagem eletrônica, como a prefeitura ainda cobra uma nova passagem de alguém que apenas atravessa a rua, de um tubo para outro, como no caso da praça Eufrásio Correia?

Até quando vamos esperar para abrir a planilha de custos da Urbs, colocar para funcionar um conselho de transporte, implantar uma integração temporal, instituir o passe-livre para os estudantes? Não queremos uma auditoria apenas nos radares, mas em toda a Urbs.

O déficit habitacional em Curitiba é estimado em 60 mil casas. Enquanto isso, dos 634 mil domicílios da cidade, apenas 565 mil estão ocupados. O ritmo de legalização das cerca de 200 áreas irregulares de Curitiba é lento. É preciso, entre outras coisas, destinar ao menos 2% do orçamento da prefeitura para a área. E desestimular cada vez mais a especulação imobiliária.

No serviço público, Curitiba precisa recuperar as perdas salariais dos seus servidores, realizar mais concursos, administrar com transparência, valorizar o funcionalismo. Acabar com o nepotismo — o direto e o cruzado. E combater as terceirizações. Quanto Curitiba gasta por mês com cada ambulância alugada, por exemplo?

Na educação, é urgente ampliar de 25% para 30% o percentual de verbas para a educação. Milhares de mães não conseguem vagas em creches. Além de construir novas creches, é preciso reduzir o número de alunos por sala, uma forma de melhorar a qualidade do ensino.

A Prefeitura de Curitiba fechou na última década quatro dos seus cinco cinemas públicos. Algumas reformas e promessas de reabertura já duram até sete anos, como no caso do Cine Guarani, no Portão. Aplicar 1% em cultura é o mínimo. E instalar equipamentos culturais nos bairros, uma necessidade urgente.

Curitiba é a capital do país com o maior percentual de moradores em situação de rua em relação ao total da população. Seriam cerca de 2,8 mil pessoas nessa condição, conforme o levantamento mais recente do Ministério de Desenvolvimento Social.

Com exceção talvez do Rio Passaúna, todos os rios da cidade estão mortos. Cadê a ênfase na coleta seletiva, com apoio a cooperativas de catadores? Cadê o estímulo ao uso de energias alternativas? A gestão transparente dos contratos e dos aterros sanitários?

Na saúde, o que se vê são filas e demora no atendimento nas unidades, consultas especializadas marcadas para depois de um ano, deficiência nos programas de saúde mental. É preciso democratizar os conselhos de saúde, hoje cooptados, implantar a jornada de 30 horas, ampliar o programa saúde da família.

Falta uma política pública em Curitiba voltada às mulheres, não apenas na área de violência, como na saúde e na geração de renda, entre outras.

No trânsito, o que se vê são congestionamentos e a falta de incentivo a transportes alternativos como a bicicleta. O pedestre não é prioridade. As calçadas estão abandonadas e as ruas de antipó, esburacadas. Por que não construir estacionamento públicos nos terminais de ônibus, para veículos e bicicletas? Por que as ciclovias e ciclofaixas não vão dos bairros ao centro, mas apenas entre parques? Cadê a fiscalização da emissão de gases poluentes, a começar pelos ônibus do transporte coletivo?

Se não é possível pensar Curitiba sem pensar a Região Metropolitana, tampouco é possível seguir administrando a cidade sem de fato ouvir e envolver os seus cidadãos em todos os processos de decisão.

Participação popular é algo que vai muito além do discurso fácil e das audiências públicas que, na verdade, não passam de formalidades legais que nada mais são do que meras caixas de sugestões.

No que um Legislativo submisso à prefeitura contribui com a participação popular? Reclama-se muito do Sarney, mas o que dizer de um Derosso que preside a Câmara Municipal há quase uma década e meia, de forma ininterrupta?

Curitiba precisa de uma boa dose de humildade, de renovação e vitalidade. Não se trata de negar os avanços, mas de denunciar os problemas e apontar soluções. Chega dos discursos fantasiosos de que estamos no topo de todos os rankings. Chega das mesmas famílias se alternando e colocando seus descendentes no poder. Chega dos cartéis e das máfias dos radares, dos táxis, do lixo, dos ônibus, dos carros alugados. Curitiba não é uma capitania hereditária.

Pés no chão mas com olhar no horizonte, do Cachoeira ao Caximba, da CIC ao Cajuru, os curitibanos querem políticas públicas universais, mais democracia direta, mais envolvimento, mais respeito. O futuro da cidade não deve mais ser planejado e construído entre quatro paredes, por equipes de pretensos iluminados, mas de forma compartilhada e coletiva. Sem mitos, por muitas mãos. Com pluralidade de vozes a participação efetiva dos trabalhadores, que são de fato quem constrói a cidade. Embora nem sempre usufruam dela.

.Dr. Rosinha, médico pediatra, é servidor da Prefeitura de Curitiba. Exerce o mandato de deputado federal. É pré-candidato a prefeito pelo PT

Curitiba 318 anos – bela, porém, ainda precisa ser mais humana

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Boca Maldita: a fluência e a diversidade da capital de todos os paranaenses 

Mercosul passou no teste

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Por Nilton Bobato*

O Tratado de Assunção que deu o formato que conhecemos e é a certidão de nascimento do Mercosul completou 20 anos no último dia 26 de março. Passaram-se duas décadas daquela assinatura capitaneada por personagens como Collor de Mello e Carlos Menem, assinatura que como seus aventureiros presidentes, parecia fadada a resolver apenas alguns interesses comerciais de Brasil e Argentina, trazendo a tiracolo o Paraguai e o Uruguai. Hoje é fácil comprovar que aquela aventura foi muito importante para todos os países que compõem o bloco e principalmente para a manutenção de um caminho independente de política externa do continente inteiro.

Como disse um dia Renato Russo, que completaria 51 anos no dia 27 de março, se estivesse vivo: “disciplina é liberdade”. O Mercosul sobreviveu a três crises econômicas e principalmente a tentativa de implantação da Alca no final de década de 1990. Manter-se no caminho foi fundamental para conquistarmos o continente que temos hoje. Ou seja, o Mercosul já deu certo, mesmo que digam e apontem todas as suas falhas.

É claro que a consolidação do Bloco só foi possível com a superação da crise política na Argentina, a chegada ao poder dos Kirchner e com a eleição de Lula no Brasil. Estes governos focaram na integração continental e na busca de caminhos alternativos diferentes dos apontados pelos senhores do norte.

Vale salientar também que a intensa participação e mobilização dos movimentos sociais dos quatro países do Bloco, em sua defesa, foi fundamental para atravessarmos juntos estes 20 anos. Os movimentos sociais do Mercosul construíram a base social que o Tratado de Assunção necessitava para sobreviver.

Precisa avançar? Precisa avançar e muito, principalmente na integração de suas fronteiras. Já disse isso neste espaço, mas esta data é propícia para repetir. Precisamos deixar de ser um acordo de compra e venda de mercadorias e um pacto político continental para avançarmos rapidamente rumo a uma verdadeira integração de nossas fronteiras, de nossos projetos educacionais, no trânsito de pessoas, na integração do trabalho e de nossas culturas.

Passos importantes rumo a esta integração são dados a cada Cumbre Social realizada, projetos como a UNILA, como a segunda Ponte entre Brasil e Paraguai (entre Foz do Iguaçu e Puerto Franco), caminham neste sentido, na construção da verdadeira integração dos países do bloco, mas é preciso acelerar mais.

Passos como a aprovação do Decreto Legislativo 860/08 no último dia 25 de março, pela Câmara dos Deputados, são fundamentais na integração fronteiriça, mas são lentos. O Acordo que tramitava desde 2008, levou três anos para começar a virar lei no Brasil e constrói a identidade fronteiriça apenas entre Brasil e Argentina. Agora precisa ser efetivado, implantado em cada Município que faz fronteira entre os dois países. É preciso construir os mesmos caminhos nas fronteiras com o Uruguai e o Paraguai.

As cidades fronteiriças, principalmente Foz do Iguaçu, quando da assinatura do Tratado de Assunção, tinham como uma de suas principais atividades econômicas o fato de ser um entreposto comercial de exportação. A implantação do Mercosul fez com estes entrepostos se tornassem desnecessários, já que o comércio passou a ser realizado direto entre o importador e o fabricante. Nos tornamos, durante muito tempo, apenas pontos de passagem.

Municípios como Foz, pagaram um preço muito alto pela implantação do Mercosul, mas com a ampliação dos projetos que buscam a integração entre as fronteiras, cada uma destas cidades começam a ter uma espécie de justa compensação que mobiliza suas economias.

Pavimentar o caminho, persistir na busca da integração, ampliar o tamanho do bloco e se constituir como base fundamental da Unasul, é o caminho para os quatro países que integram o Mercosul.

*Vereador do PCdoB em Foz do Iguaçu (PR), membro do Conselho Nacional de Política Cultural, professor e escritor.

Portal Vermelho denuncia censura do governador tucano Beto Richa à mídia alternativa no Paraná

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Não é por “problemas técnicos” que, volta e meia, o blog do jornalista Esmael Morais (http://esmaelmorais.com.br) sai do ar. A página, uma das mais influentes do Paraná, sofre ataques à margem da lei do governador Beto Richa (PSDB) — que não suporta a publicação de nenhum tipo de crítica ou mesmo notícia que lhe seja desfavorável.

Por André Cintra*

Richa promove uma versão alternativa do modo tucano de reprimir jornalistas independentes. O expoente maior dessa tradição é o ex-governador José Serra. Se um jornalista da grande mídia o incomoda com perguntas indesejáveis, Serra não pensa duas vezes: telefona para o dono da empresa e pede a demissão do desavisado entrevistador.

No caso dos blogueiros — que não têm patrão —, o ex-governador se limita a lançar infâmias contra eles, tachando os blogs progressistas de “falanges do ódio”, “sujos”, entre outros rótulos. Beto Richa também partilha da estratégia de patrulhar a imprensa e ofender a blogosfera — mas, como não tem tanto apoio midiático quanto Serra, faz parcerias é a com a Justiça.

Um tema particularmente constrangedor para o tucano — e corajosamente denunciado pelo Blog do Esmael — diz respeito ao chamado Comitê Lealdade. Em 2008, quando Richa disputou a reeleição à Prefeitura de Curitiba, o PRTB decidiu apoiar Fabio Camargo (PTB). De uma hora para outra, 23 candidatos a vereador do partido desistiram da candidatura, anunciaram uma inusitada dissidência e organizaram a fundação de um comitê em apoio a Richa.

Soube-se, meses depois, que a adesão foi paga com “Caixa 2” (dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral) e cargos na gestão municipal. O chefe do esquema era Alexandre Gardolinski, que foi pessoalmente indicado por Richa e se responsabilizou pelos pagamentos — em espécie. O Comitê Lealdade parecia funcionar como fachada.

Em depoimento ao Ministério Público Regional Eleitoral do Paraná, o empresário Rodrigo Oriente — um dos arrecadadores do Comitê Lealdade — denunciou a participação pessoal de Richa na negociata. O órgão confirmou a existência de “Caixa 2”, mas inocentou o prefeito — apesar de a Resolução 22.175/2008 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dizer que “os candidatos são responsáveis solidários por qualquer informação ou ilegalidade” na campanha.

Em 2010, depois de renunciar ao cargo para concorrer ao governo estadual, o tucano tentou emplacar na campanha a fama de “gestor moderno”. Mas a marca mais notória de sua candidatura foi a ofensiva judicial para proibir a divulgação de todas as pesquisas de intenção de votos que mostravam seu adversário, Osmar Dias (PDT), na liderança.

Ao mesmo tempo, Richa desencadeou a perseguição a jornalistas independentes e à mídia alternativa. “Ele já me tirou do ar duas vezes. A censura ao blog começou durante a campanha de 2010”, diz Esmael ao Vermelho. O blog reconstituía as denúncias do Comitê Lealdade e refrescava a memória do eleitor paranaense. “Não fui só eu que disse que houve desvio de dinheiro para comprar políticos. As acusações apareceram até no Fantástico e derrubaram integrantes do alto escalão da Prefeitura.”

Por decisão de um Judiciário local sempre simpático a Beto Richa, Esmael teve de apagar “postagens ofensivas” ao tucano. Para todos os efeitos, o blogueiro aproveitou o próprio blog para denunciar Richa na ocasião:

Eu, Esmael Morais, comunico a todos os internautas que por livre vontade visitam o meu blog que medida liminar deferida em ação intentada pelo Sr. CARLOS ALBERTO RICHA (CANDIDATO DO PSDB AO GOVERNO DO ESTADO) determinou a retirada do meu blog de todo conteúdo que considerou ofensivo ao autor. A decisão tem um alcance ilimitado e considero humanamente impossível verificar mais de 20 mil postagens. Isto levaria semanas ou talvez meses.“Como eram mais de mil publicações sobre o Richa, pedi para o juiz determinar o que é e o que não é ofensivo. No final, sob ameaça de receber multa de R$ 10 mil por dia, tive de retirar umas 500 postagens, a maioria sobre o Caixa 2”, recorda-se.

Foi tão-somente o começo de uma férrea perseguição. Segundo Esmael, Richa passou a atacar a empresa Locaweb, que, coagida, suspendeu a hospedagem do blog. “Consultei especialistas: só é permitido retirar um blog do ar quando a publicação de conteúdos é anônima. Mesmo assim, fui censurado.”

O jornalista trocou a Locaweb pela americana Just Host em outubro de 2010— mas a repressão não cessou. Na semana passada, a pedido dos advogados do governador, a Just Host tirou do ar, por alguns dias, o Blog do Esmael — o jornalista estaria movendo uma “campanha de ódio” ao tucano. “O governador censura porque não quer ser alvo de críticas. É uma violência, um crime. Ele pode procurar a Justiça, mas jamais atentar contra o Estado Democrático de Direito.”

O caso Esmael já repercute na blogosfera, em emissoras paranaenses de rádio e até na grande mídia. “Conversei longamente, na última sexta, com a repórter Estelita Carazzai, da Folha — mas, até agora, não saiu nada.”

O jornalista promete levar sua causa ao 1º Encontro Estadual dos Blogueiros Progressistas do Paraná, que ocorre nos dias 9 e 10 de abril, em Curitiba. “Num dos painéis do encontro, sobre censura, defenderei a construção de um sistema de hospedagem blindado e imune, com gestão pública”, diz. “Para fazermos blogs políticos que desagradem ao status quo, não podemos ficar reféns dessas empresas privadas, geralmente associadas ao capital estrangeiro.”

Assim, em razão da decisão não indicar expressamente quais as inserções seriam ofensivas, e diante da ameaça de imposição de multa e retirada do site do ar, decidi, por cautela, suspender as inserções até que seja delimitado o alcance da decisão.

Estou adotando as medidas judiciais para revisão da referida liminar, ingressando com os recursos cabíveis, de modo a continuar expressando a minha opinião.

*Articulista do Portal Vermelho

Frente Ampla do Uruguai comemora 40 anos com a presença do ex-presidente Lula

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Blog do Esmael
 
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca nesta sexta-feira (25) em Montevidéu, capital do Uruguai, para participar de um comício em comemoração aos 40 anos da Frente Ampla de Esquerda — que está no poder.

O presidente do PCdoB do Paraná, Milton Alves, também vai ao evento de hoje. Ele representará a direção nacional do partido.

“O PCdoB mantém relações políticas e fraternais com os partidos da Frente Ampla, que inclui entre eles o PC do Uruguai”, disse Alves.

A Frente Ampla do Uruguai elegeu José Mujica, em 2009, como sucessor do ex-presidente, Tabaré Vasques, da mesma coalizão de partidos de esquerda.

O presidente Lula já defendeu em várias oportunidades o modelo uruguaio de unidade para as legendas de esquerda brasileira.

“As federações partidárias podem ser uma saída para garantirmos o projeto de mudança em curso no Brasil”, opinou o presidente do PCdoB paranaense.

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